














DISPONIBILIZAO: MARISA HELENA
DIGITALIZAO: SILVIA
REVISO: GABY G


       COLEO: CORIN SRIE VERDE
       Pedidos pelo Reembolso Postal:
       CEDIBRA - EDITORA   BRASILEIRA   LTDA.
       CORIN TELLADO - O SABOR DA VIDA
       Traduo de: Izabel Baroni
       cedibra
       Ttulo original:
       VEN A VERME LOS LUNES (c)  Corin Tellado
       Direitos exclusivos para o Brasil
       CEDIBRA - EDITORA BRASILEIRA LTDA. 1Edio - MCMLXXX
       Distribuio por:
       FERNANDO CHINAGLIA DISTRIBUIDORA S.A




       CAPTULO 1

       - Vamos, pare com estas reclamaes - murmurou Michel, com impacincia. - Voc no se calou um minuto desde que cheguei. A gente fica o dia todo ouvindo queixas
dos outros, e quando chega em casa, pensando em descansar, encontra um ambiente como este... Voc est falando sozinha, Maud, porque Paty ainda no lhe deu uma resposta
sequer. Por que voc no se cala, ao invs de ficar chateando a menina? - pediu, com voz resignada, deitando-se no sof. - Ela mora sozinha porque est ganhando 
para se manter, e j  de maioridade; alm disso, eu sou seu pai e lhe dei consentimento para alugar aquele apartamento. Quando ela morava conosco, voc tambm no 
vivia contente, e agora, cada vez que minha filha vem nos visitar, voc arranja um monte de razes para poder lamuriar-se, deixando a menina quase doida. Em que 
ela aborrece voc?
       E como Maud continuasse berrando com histerismo, ele acabou perdendo a pacincia totalmente.
       - Diabos! Paty estava com dez anos quando ns nos casamos, e naquela poca voc j no tinha pacincia com a criana. Se ela fizesse qualquer coisa, que no 
fosse de seu agrado, logo comeava a se queixar exageradamente, e eu acreditava em suas maldades, Maud. E por pouco, s por acreditar em suas rabugices e frieza, 
quase perco o amor de minha filha. Como fui tolo, pensando que voc seria uma segunda me para ela. E ainda bem que eu no segui suas sugestes, de a castigar constantemente...
       Maud nem estava ligando para ele, continuava gritando, enquanto Paty passava os olhos pelo jornal, sem l-lo, mas tambm sem lhe dar resposta alguma.
       - Um apartamento s para voc - continuava Maud, bastante alterada. - E depois fica dizendo que no pede auxlio nenhum para mant-lo. Bem que eu gostaria 
de saber quanto seu pai lhe d mensalmente.
       Paty levantou-se, dobrou o jornal e olhou para o pai com ternura, desconhecendo a presena da madrasta.
       - Papai, eu no virei mais visit-lo. Quando sentir saudades, vou v-lo l na fbrica.
       - Alm de orgulhosa  tambm atrevida - gritou a mulher.
       - Est bem. Acho bom que se calem por ora - apaziguou o pai, com serenidade.
       Paty aproximou-se dele e lhe deu um beijo estalado, caminhando imediatamente para a sada. Era uma moa bonita, com vinte e dois anos, cabelos castanhos e 
olhos grandes e verdes. Tinha um nariz aquilino, e os lbios eram do tipo sensual, que mostrava uma dentadura perfeita ao sorrir.
       - Ganho para mim e minhas despesas - disse, parando antes de alcanar a porta. - No sei se ganho muito ou pouco, mas, de qualquer medo, consigo cobrir meus 
compromissos.
       Maud estava caminhando atrs da enteada. Era uma mulher delgada, nem feia, nem muito velha. Michel pensava que seu maior problema era o cime que ela sempre 
sentira de Paty. Por isso, ele no se ops  filha, quando esta resolveu morar sozinha, logo aps ter completado o curso de Direito. Apoiou-a tanto, que ele mesmo 
procurou um apartamento para ela alugar, e este foi o nico auxlio que lhe pde dar. Acontecia, entretanto, que Paty era uma moa sagaz e inteligente, que sempre 
acabava criando ambiente propcio em qualquer local que chegasse. Maud podia reclamar, porm ele no dera mais um centavo  filha depois do dia da mudana.
       - No voltarei a esta casa - repetiu, fitando a madrasta. - No dia em que eu sentir saudade de papai, saberei onde encontr-lo.
       - E garanto que nessas ocasies vai lhe pedir todo o ordenado...
       - Maud, ela nunca me pede coisa alguma - ponderou Michel, com uma calma forada. - E eu nada lhe poderia dar porque entrego todo meu ordenado a voc.
       - E eu por acaso sei quanto  que voc recebe?
       - Por favor, no comece com cenas depois de treze anos de casamento.
       Enquanto o elevador descia, Paty pensava que s raramente visitava o pai, e j havia decidido que nunca mais viria a sua casa, por muito que o amasse. Era 
grata pelos sacrifcios que ele fizera para ela poder estudar e vencer, como estava acontecendo. Se tivesse dependido dos esforos de Maud, hoje no passaria de 
uma empregada domestica.
       Depois que se formara e fora morar sozinha, nem sempre a vida lhe havia sido rsea; contudo, aos poucos estava granjeando uma clientela que, embora pobre, 
sempre lhe rendia alguma coisa. Tambm arranjara emprego em trs departamentos jurdicos, e os ordenados que ganhava neles ajudavam as despesas obrigatrias de sua 
vida simples e metdica.
       O elevador chegou ao trreo, e logo ela alcanou a rua, onde finalmente conseguiu respirar com mais calma, tendo a impresso de que a casa do pai estava infestada 
por micrbios de maldade e que Maud jamais deixaria de ser uma madrasta intratvel.
       A noite estava fria; ela levantou a gola do casaco e se encaminhou rapidamente para o metr. S relaxou um pouco ao se sentir entre os usurios do mesmo. 
Sentou-se e comeou a refletir sobre os fatos que vinham ocorrendo em sua vida. Passava todas as tardes no escritrio, onde ficava  espera dos provveis clientes 
que poderiam subir; as manhs eram divididas entre as assessorias a que atendia. Na realidade, eram estas que custeavam as despesas mensais.  Elas no haviam aparecido 
por acaso, ou pela apresentao de algum amigo; submetera-se  prova de seleo e fora aprovada, pela competncia, conhecimento e dedicao que possua. Morava sozinha 
h um ano. De incio, enfrentara algumas  dificuldades, e muitas vezes se sentira tentada em no pagar o aluguel ao administrador, quando este passava para apanh-lo. 
Antes de ser admitida na fbrica, havia passado uma temporada dando aulas particulares a um "filhinho de papai", que nada queria com os estudos; mas o que recebia 
com elas dava exatamente para completar o aluguel.
       Mais tarde, comeou a procurar emprego. E um dia encontrou anncio no jornal, o qual solicitava um advogado para a assessoria jurdica de uma fbrica de plsticos. 
Apresentou-se e, depois de ser submetida aos testes obrigatrios, foi a escolhida dentre todos os candidatos. Com este ordenado fixo sentiu-se mais confiante e abandonou 
as aulas particulares. Mais tarde, leu outro anncio semelhante para uma tecelagem; o sucesso no a abandonou e foi aproveitada. Pouco tempo depois, por intermdio 
desta ltima fbrica, conseguiu um cargo anlogo numa de suas filiais, e com isso ia se mantendo.
       As assessorias eram bem remuneradas, e no escritrio ganhava conforme os clientes que apareciam. Os primeiros honorrios recebidos foram gastos com melhorias 
do prprio escritrio, que ela instalara numa das salas do apartamento. At ento, estava mobiliado com uma mesa, duas cadeiras e uma estante para livros. Sabia 
que, se o melhorasse, os clientes comeariam a aparecer. Por este motivo estava morando numa rua comercial, onde os aluguis no eram dos mais baratos.
       Mas raciocinava da seguinte maneira: quanto melhor instalada estivesse, mais facilidade teria para conseguir melhores clientes.
       Os primeiros a aparecerem nada tinham de excepcional.
       Comeou com um caso de divrcio, mas, como no possusse experincia alguma, acabou perdendo o cliente. Sentiu-se decepcionada por esse motivo. Depois apareceu-lhe 
uma questo judicial, que ela conseguiu vencer facilmente e foi muito bem remunerada pela parte interessada. Depois, sucessivamente, comearam a surgir diversos 
clientes, com casos os mais variados.
       Outra, no lugar de Paty, teria se sentido realizada unicamente com os trs departamentos jurdicos, mas ela desejava ser advogada criminal, e s descansaria 
quando suas ambies estivessem realizadas.
       Para o escritrio, comprou uma moblia profissional de segunda mo. Mandou um carpinteiro fazer uma estante de livros, que recobrisse completamente uma das 
paredes da sala. Depois, semanalmente freqentava os "sebos", e aos poucos foi adquirindo uma biblioteca especializada.
       S deixou de pensar quando o metr pairou onde ela devia saltar. Caminhou rapidamente, para a casa, onde j estava instalada uma placa com seu nome.
       C L E R Y advogado
       Sorriu satisfeita, pois aquela placa de letras douradas dava-lhe autoconfiana. O incio fora duro, pois no tinha experincia e s conhecia a parte terica, 
mas aos poucos foi aprendendo a aplicao das leis que eram necessrias s defesas que fazia.
       - Ser que  um bom advogado? - perguntou-lhe uma voz.
       Virou-se para ver quem falava, e seus olhos se encontraram- com os de um homem desconhecido. Ele tinha uma aparncia elegante, estava muito bem vestido, e 
os olhos e cabelos eram escuros.
       - No acredito que seja mau - respondeu cautelosamente. - A rua e a casa tm um aspecto de prosperidade.
       - Mas eu quero o melhor. 
       No teve coragem para se apresentar e nem de garantir que fosse a melhor.
       - Nesta rua h outros advogados - arriscou, inibida.
       - Chamo-me Jack Frederick - ele apresentou-se, estendendo-lhe a mo.
       A moa considerou aquela apresentao um tanto ridcula, mas decidiu que o melhor a fazer seria imit-lo. Estendeu-lhe tambm a mo, com um sorriso.
       - Meu nome  Paty,
       - Sinto-me muito solitrio - disse ele, apertando-lhe a mo.
       Paty estranhou aquelas palavras. Ela tambm sentia solido, mas nem por isso vivia espalhando aquele seu estado de alma. Depois de mais algumas frases banais, 
despediu-se dele, classificando-o como um homem excntrico.
       Respirou com alegria ao entrar em casa. Adorava seu lar, calmo e confortvel. No vestbulo pequenino havia duas portas - uma dava para o escritrio e a outra, 
para a sala.
       Ainda no ganhava para poder pagar uma auxiliar, mas, se a situao melhorasse, ia contratar uma estudante, para servir como relaes publicas junto aos clientes 
que a viessem procurar.
       Despiu o casaco, acendeu todas as luzes da casa e comeou a vistori-la - o escritrio era montado com bom gosto e decorado com discrio. Os mveis, embora 
comprados de segunda mo, denotavam qualidade e solidez. Eram confortveis e de linhas sbrias, que se coadunavam com sua finalidade.
       A sala era um conjunto de vrios objetos baratos, como mesas, estofados, abajures, consoles, almofades, que acabavam formando um ambiente por demais acolhedor. 
Paty jamais se julgara capaz de engendrar uma casa to agradvel como a sua.
       Ao fundo da sala, se via uma porta que dava para a sute. E, do outro lado, uma outra, dando para uma cozinha minscula. O apartamento era acolhedor. Com 
o auxlio de um pedreiro, ela havia mandado dividir o escritrio, para arrumar uma salinha de espera.
       Sorriu, sentindo-se feliz, e foi para a cozinha a fim de improvisar um jantarzinho.
       
       
       CAPTULO 2
       
       Jack ouviu quando o empregado falava com Ed. J estava cansado daquele assunto, e de boa vontade teria mandado tudo s favas, primeiramente encaminhando Ed 
para o inferno.
       Mas isso era impossvel, pois fizera muito sacrifcio para chegar at onde sua ambio alcanava, e no ia abandonar tudo, s porque Ed estava desejando que 
ele fizesse isso.
       Reparou que o empregado estava tentando impedir a entrada do cunhado. Decidiu ir a seu encontro e enfrent-lo abertamente. Reconhecia suas prprias ambies, 
mas as de Ed no eram menores que as dele.
       San Diego era grande, e ele no podia explicar por que fora morar naquela parte da cidade, somente para se sentir dominado por aquela maldita tentao. E 
o pior  que ela continuava vivida e ainda no conseguira acalmar sua ambio, embora j no existissem mais esperanas de ele alcanar e usufruir toda a riqueza 
que desejara.
       - Entre, Ed - convidou, aparecendo  porta da sala.
       Este no era um homem jovem, e devia estar beirando os quarenta anos, mais ou menos. Era ruivo e tinha o rosto coberto de sardas. O olhar era frio e penetrante. 
Jack o conhecia profundamente, e at podia prever que ele lhe levantaria o dedo em riste quando fosse acus-lo. E o pior  que vivia para infernizar sua vida e aborrec-lo, 
coisa que acontecia diariamente.
       Ed entrou, e nem olhou para o empregado que tentara barr-lo, mas no se dominou e gritou para o homem:
       - Viu? De nada adiantou suas proibies.
       - Entre, Ed. Qual  o problema de hoje?
       Quando penetrou na sala de jantar, viu que este se achava servindo para uma nica pessoa.
       - Voc est vivendo como um pax - comentou, com ironia. - Ningum poderia imaginar que isso fosse acontecer algum dia...
       - Se quiser fazer uma boquinha... - convidou Jack, com calma.
       - No. Eu j jantei, mas voc pode continuar - sorriu de forma desdenhosa, sentando-se numa cadeira, enquanto Jack continuava de p. - S vim para conversar 
com voc.
       - Todos os dias voc vem me chatear, Ed - falou Jack, pausadamente e sem se alterar. - Na fbrica j esto me cansando. Acho que voc se esqueceu de que eu 
sou o proprietrio, diretor-presidente e esposo da maior acionista-proprietria.
       - Ela  minha irm.
       - Minha esposa - aparteou Jack. 
       Antes de responder, Ed pegou um charuto, do bolso do casaco, mordeu-o na extremidade e cuspiu-a ao cho.
       - No est num campo de futebol - Ed  acendeu o charuto, em silncio, olhando com raiva para o cunhado.
       - Vou lhe dizer uma coisa - e Jack j sabia que ele ia levantar o dedo em riste, como j estava fazendo. - No pense que sair vencedor. H cinco anos, voc 
era somente um vulgar qumico da indstria.
       - Entretanto, voc continuou sendo um empregadinho da administrao...
       - No vim para falarmos sobre mim. Meu tio foi um verdadeiro idiota. s vezes, ainda me pergunto se ele no foi engambelado por voc.
       - Se isso tivesse acontecido - murmurou Jack, continuando a refeio - garanto que o herdeiro teria sido eu, e nunca sua irm.
       - Alis, voc estava cansado de v-la e nunca lhe tinha dito nem um galanteio - gritou Ed. - Reconheo que minha irm nunca brilhou pela beleza e, alm de 
feia, era uma moa manaca; a prova disso foi tudo o que aconteceu mais tarde. Mas, mesmo assim, continuo tendo minhas dvidas se no foi voc o culpado pela loucura 
que a atacou.
       - Ed...
       Mas o cunhado no lhe deu oportunidade para falar e continuou:
       - Voc s "viu" minha irm depois da morte daquele velho gag, que deixou toda sua fortuna para ela - esta manso, a fbrica de produtos qumicos, enfim, 
todos seus bens. Imediatamente, voc se "apaixonou" por Wanda; ela caiu que nem um patinho, e em menos de trs meses vocs estavam casados.
       Jack mastigava pausadamente, mas se achava com um humor de co. O cunhado estava certo, pois havia se casado com Wanda por causa da fortuna que ela herdara... 
Mas Ed no precisava ficar batendo nessa tecla constantemente. Este continuava gritando:
       - Voc se fez dono e senhor, nomeando-se diretor-presidente.
       - Por acaso tudo no est andando s mil maravilhas? A indstria teve prejuzos? No implantei inovaes que deram bons dividendos? Por acaso algum pode 
me acusar de desonesto? Comprei carros, ou arranjei amantes?
       - Desses pormenores, no tenho conhecimento, mas Wanda morria de cimes.
       - Gratuitamente - retrucou, com segurana. - Ela era mais velha do que eu, e se sentia complexada por causa disso. Acho que esta foi uma das causas de sua 
loucura mas eu no tenho culpa alguma.
       - Mas, quando ela teve uma crise mais forte que as anteriores, voc internou-a no ato, e at hoje ela continua internada.
       A loucura de Wanda era agressiva, e os mdicos haviam aconselhado o internamento. Jamais ele o havia planejado, ou mesmo esperado por isso. No a amava, mas 
nem por isso desejava-lhe o mal, e sempre lhe fora fiel.
       Ed continuava, furioso: 
       - No pense que vou perdo-lo depois da morte de Wanda. Ter de me restituir at o ltimo centavo. Seus planos foram falhos, Jack. O velho declarou em testamento 
que, se ela no se casasse, ou no tivesse filhos, e ainda em caso de divrcio, ou por sua morte, todos os bens passariam para os parentes mais prximos. Neste caso, 
somos eu e um tio, que anda jogado pelo mundo.
       Jack sabia daquilo tudo h muito tempo.
       - Voc parece um relgio de repetio... Vive dizendo as mesmas coisas desde que eu me casei com sua irm. No sei por que no a fez desistir desse casamento.
       - Bem que eu tentei, mas foi tudo em vo. Disse-lhe que voc era um caa-dotes, um oportunista, que vivia  caca de vantagens e que, por ser mais novo do 
que ela, dentro de pouco tempo comearia a tra-la.
       - Por essas e por outras  que eu acho que voc foi o causador da loucura que acometeu Wanda - replicou Jack, com calma. - Se no tivesse lhe contado tantas 
mentiras, ela jamais teria tido tantas preocupaes por causa de minhas pseudo-infidelidades, ou porque fosse mais velha do que eu. Voc foi o nico causador de 
suas inquietudes e, agora, est podendo presenciar os resultados.
       - Sei que os mdicos viveram elogiando o marido que voc . Dizem que vai visit-la diariamente e que no mede esforos para cur-la... No acredito nisso, 
pois sei que est usurpando o mximo da indstria e, no dia em que sua mulher morrer, voc ser um homem rico. Mas eu no me esqueci de que h cinco anos, quando 
vocs de casaram, o noivo era um pobreto, que no tinha um centavo sequer.
       Jack abriu a porta, procurando esconder a raiva que sentia.     
       - Saia desta casa imediatamente - falou com naturalidade, mas Ed o conhecia muito bem, para sab-lo furioso. - Nunca mais volte aqui, e tenha muito cuidado 
na fbrica porque, quando menos esperar, eu lhe ponho no olho da rua. Quando sua irm morrer, se for de sua vontade, podemos reiniciar a briga. Mas no pense que 
isso vai acontecer to depressa, porque loucura nunca matou ningum. Contudo, vou lhe dizer uma coisa: no momento, eu sou o dono de tudo. Tenho amplos poderes para 
agir em nome de minha mulher, e o que eu resolver, est resolvido. No dia em que eu me cansar de voc, dou-lhe um pontap e o mando passear na rua da amargura. Tenha 
cuidado, porque seu tempo de fbrica est chegando ao fim. 
       - Se isso acontecer, eu armarei um escndalo enorme, e porei seus podres para fora. Direi a todos que voc s se interessou por Wanda depois de ela ter recebido 
a herana de meu tio. Que sempre se interessou mais pela fbrica do que pela esposa e que, por isso, ela teve um ataque de loucura. Ento, voc a internou simplesmente. 
Garanto como ser linchado pelo povo de San Diego.
        Jack contemplou Ed com os olhos cansados, sabendo de antemo que o povo da cidade mais facilmente acreditaria no industrial do que num humilde operrio de 
sua fbrica.
       Mas preferia no se envolver com tais complicaes. Ed falava algumas verdades. Por exemplo, ele s havia cortejado Wanda depois de ela se tornar a herdeira 
do tio. Contudo, quem podia conden-lo por ser um rapaz ambicioso? Mas uma coisa era certa, nunca enganara a esposa, embora no casse de amores por ela. Jamais 
ficara palpitante, quando a seu lado, entretanto isso tambm no seria motivo para aquelas crises de cimes doentios.
       Ela devia saber que ele nunca fora um mulherengo, pois j se conheciam h mais de cinco anos quando o velho Daton faleceu, legando toda sua fortuna pessoal 
 sobrinha predileta.
       Sempre soubera que Wanda era mais velha do que ele. Se ela fosse uma mulher inteligente e perspicaz, no teria sido ele quem havia de lembrar-se dessa diferena 
de idade. Mas Ed tomou a si o encargo de chatear e complexar a irm por causa disso.
       Atiou seus cimes infundados. Sendo ela uma pessoa doente, deixou-se levar por suas mentiras e maldades, acabando por ter ataques de loucura, que foraram 
a sua internao num sanatrio de doenas mentais.
       Sua loucura era agressiva e, por esta razo, os mdicos acharam que a melhor medida seria mesmo a internao.
       -  melhor ir embora, Ed. J me cansei de lhe dar ateno.
       - No p em que as coisas esto, s existe uma forma de voc se portar. Divorcie-se de Wanda e nos deixe em paz. Eu ficarei responsvel por ela.
       Havia se sacrificado muito para conseguir a posio onde estava, e agora no ia dar tudo de mo beijada ao cunhado.
       - Cuide de sua vida e acautele-se em relao  fbrica, para no acabar levando um bom fora. Cumpra suas obrigaes e me deixe em paz. E agora, saia e no 
volte mais aqui.
       Ed saiu reclamando, e Jack fechou a porta com fora. Depois, vestiu o sobretudo e decidiu que daria uma volta a p.  No pensava em arranjar uma companhia 
para distrair-se, e tampouco estava se lembrando de Wanda. Sentia-se preocupado com Ed, e gostaria de v-lo bem longe. Mas isso s seria possvel se ele fosse despedido...
       Procuraria um advogado que pudesse orient-lo... E foi a que se lembrou daquela placa que havia lido na noite anterior... Um dia iria procur-lo, pois seria 
mais interessante tratar desse caso com uma pessoa completamente desconhecida.
       Ed comeava a ser perigoso. Andava de um lado para o outro incitando os companheiros a uma greve geral.
       Naquela manh, um dos advogados da indstria passou pelo gabinete do diretor, a fim de tratar com ele de um assunto de interesse da firma. Jack tentou comentar 
o comportamento irregular do cunhado, mas todos os advogados que trabalhavam l eram empregados antigos, que jamais se colocariam contrrios s opinies de um Daton. 
Jack tinha de agir com cautela, se no desejava prejudicar-se e arranjar inimigos. Por isso, observou com indiferena:  
       - Os operrios parecem estar revoltados e descontentes. Estou desconfiado que Ed Daton seja o lder deste movimento rebelde que est se espalhando entre todos.
       - Ed  um homem ingnuo. Ele jamais se prestaria para um movimento desses.  como aquele cachorro que ladra, mas no morde.
       Jack discordava plenamente, porquanto Ed era um indivduo vingativo, que morria de inveja da irm e que s desejava prejudic-lo; mesmo que para isso tivesse 
de prejudicar-se tambm.
       - Uma greve no seria agradvel - ponderou cuidadosamente.
       - Ela nunca estourar - disse o advogado.
       Jack poderia usar da autoridade que possua, mas preferiu ser bem cometido, insistindo mais uma vez:
       - O senhor conhece Ed Daton, e talvez pudesse pedir-lhe para acabar com essa insuflao de desordem entre os operrios.
       - No h necessidade de meu envolvimento. Ed  incapaz de matar uma mosca sequer.
       Jack preferiu no insistir. Mas naquela tarde, quando foi visitar Wanda, encontrou-a pior. Embora estivesse no quarto da doente, nem a enfermeira ou a criada 
particular conseguiam aproximar-se dela. Seu aspecto era desolador. Os cabelos grudavam-se ao rosto suarento e, quando ele perguntou s mulheres por que ela estava 
to desarrumada, a criada respondeu, quase chorando de desespero:
       - Senhor, hoje ela est num de seus piores dias.
       - Por que no chamou os mdicos? Um calmante s poderia lhe fazer bem.
       - Vrios j estiveram aqui, e nem eu ou a enfermeira conseguimos pente-la ou aplicar-lhe a injeo. At agora, ela no aceitou nenhum alimento; j tentamos 
d-lo, mas em todas s vezes ela cerra os lbios e ns no conseguimos abri-los. Os mdicos nos recomendaram calma e pacincia, pois a crise dever acabar. E ns 
estamos aqui, esperando que esta comece a diminuir.
       Ele aproximou-se de Wanda e lhe afastou os cabelos, que caam pelo rosto. Realmente, seu casamento fora um verdadeiro fracasso, embora tivesse conseguido 
a posio que sempre almejara. 
       - Wanda, voc deve fazer o que lhe pedem - falou, com carinho. - Deve ser boazinha e obediente, para ficar boa e voltar logo para casa.
       Ela continuou calada, com os olhos fixos nele. Mas, quando Jack tentou passar a mo novamente em seu rosto, ela deu um pulo e tentou agredi-lo.
       - Hoje  intil, senhor - sussurrou a empregadinha.
       Jack foi em seguida ao gabinete do diretor.
       - Parece que as coisas esto piorando, Greg.
       - Como est, Jack? - recebeu-o o mdico, amavelmente. - Voc tem razo, mas o culpado  aquele miservel que a excita.
       - Quem  ele? - quis saber Jack, curioso.
       - Sua mulher tem momentos de plena lucidez, e em outros transforma-se numa doente perigosa, que  capaz de matar uma pessoa, sem ter conscincia do que est 
fazendo. Precisa de cuidados especiais, mas seu cunhado sempre a deixa alteradssima. Quando ele chega, procura fechar-se com a irm no quarto, e fica ali um tempo, 
falando-lhe quase em sussurros. Ela sempre piora aps suas visitas. Acho que proibirei a entrada dele, do contrrio perderemos em minutos tudo que conseguimos em 
meses.
       - Voc nem pode imaginar o que esse homem anda fazendo na fbrica... Ele est insuflando os operrios a uma greve, e nem os advogados esto se apercebendo 
da situao. E se suas visitas forem proibidas, ele me acusar pelo internamento de Wanda, dizendo que isso aconteceu por causa de minha ambio insacivel.
       - Todos temos ambies - murmurou Greg. - No me interesso pelos motivos que teve para casar-se com ela, mas ningum poder alegar que no seja um marido 
atencioso e dedicado, que est se esforando ao mximo para ela poder se recuperar. O que eu no admito, como mdico,  a ignorncia do irmo, que se esfora para 
incrementar seus cimes e complexos. Garanto, Jack, este  um dos maiores motivos que prejudicam seu restabelecimento. Se voc permitir, sua visita ser proibida 
a partir de amanh.
       - Est bem - decidiu Jack. - Ele est procurando guerra, pois encontrar guerra. Pode proibir sua entrada.
       Ed no era um homem inteligente, pois se o fosse teria se esforado para galgar os melhores postos que havia na indstria. Entretanto, comeou a exacerbar 
o descontentamento entre o operariado. Vivia conclamando os homens a uma revolta, e naquela semana todos paralisaram o servio por mais de duas horas.
       Jack pensou em reuni-los no ptio, para uma conversa aberta sobre o que acontecia, mas compreendeu que esta medida seria perda de tempo. Todos eram antigos 
na fbrica e acabariam ficando claramente contra ele.
       Tentou aconselhar-se com os advogados, mas eles no lhe deram ouvidos. Todos trabalhavam h longos anos na fbrica e jamais se colocariam contra um membro 
da famlia Daton. S fariam isso, no caso de receberem ordens explcitas de Jack, mas este no seria tolo de tomar tais medidas, embora sabendo que Ed nunca se cansaria 
de instigar os trabalhadores contra a pessoa do diretor.
       No tentou conversar com Ed a ss, mas este apareceu novamente em sua casa  hora do almoo.
       Jack morava nas proximidades da fbrica, com quatro empregados dedicadssimos, que conheciam e valorizavam todo o carter bondoso do patro. E nenhum deles 
conseguiu impedir a entrada de Ed quando apareceu inesperadamente.
       - Agora nem posso ver minha irm, no ? - gritou, aproximando-se da mesa onde Jack almoava.
       Este levantou-se automaticamente, tendo a fisionomia cansada. Sabia-se um homem ambicioso e lutador, mas essa diferena que havia entre ele e Ed alterava-lhe 
os nervos.
       - Voc est prejudicando Wanda - retrucou, com calma.
       - S lhe falo verdades. Ela tem de saber que voc no passa de um caa-dotes, um estrina, que vive para tra-la com outras mulheres e que anda se intrometendo 
em todos os assuntos referentes  fbrica...
       - Com estas conversas tolas, voc s faz aumentar a loucura de sua irm - ponderou Jack, na maior calma.
       - Estou percebendo que voc paga honorrios magnficos aos mdicos, no  verdade, Jack? 
       - Entenda, Ed. No fui eu quem proibiu sua entrada, mas o diretor concluiu que suas visitas pioram a doente. E eu acho que, se voc se tivesse mantido  margem 
de nossos problemas matrimoniais, sua irm hoje no estaria trancafiada num sanatrio e nunca teria se preocupado porque  mais velha do que eu... Tambm no alimentaria 
esses cimes doentios de todas as amantes que eu nunca tive. Voc est matando sua irm e dissipando a fortuna que um dia herdar. 
       - Da qual s herdarei as paredes de cimento. 
       - Se no sair agora de minha casa... 
       - Ela era de meu tio e poder ser minha. Mas sua  que no .
       - Se no sair, vou acabar perdendo a pacincia... 
       - A pacincia sempre foi seu charme, com ela conseguiu ludibriar minha irm.
       - Pare de dizer besteiras, porque minha pacincia est chegando ao fim, entendeu?
       - Hoje  tarde eu vou visitar minha irm e, se no me deixarem entrar, farei o maior escndalo na porta do hospital. E todos ficaro sabendo que ela foi internada 
porque esta situao era mais conveniente para voc.
       - Wanda deu-me uma procurao de amplos poderes, e com ela sempre terei foras para decidir o que deve ser feito na fbrica. Portanto, eu teria a mesma posio 
se minha esposa gozasse sade.
       - Sim, mas continuaria temendo o que eu pudesse fazer. Se Wanda estivesse lcida, eu sempre poderia lhe abrir os olhos, para ajud-la a conhecer o marido 
que tem.
       -  uma pena, Ed. Desejou tanto abrir-lhe os olhos e acabou cerrando-lhe a mente. Tenho a impresso de que matou completamente a essncia humana que havia 
nela - sibilou, aproximando-se do cunhado, mas este era covarde e foi logo se afastando.
       - Espere para ver o que vou fazer - gritou. - No pense que ficarei de braos cruzados.
       Jack no duvidava das ameaas do cunhado. Por este motivo, resolveu que ia procurar um advogado naquele mesmo dia. Preferia que fosse uma pessoa desconhecida, 
para a qual pudesse contar os fatos reais, sem qualquer constrangimento. Estava querendo uma orientao, a fim de resolv-los com acerto.
        tarde foi visitar Wanda, e a encontrou amodorrada por calmantes. Daria tudo para v-la recuperada, pois, embora nunca a tivesse amado, sentia uma profunda 
amizade por ela.
       Ficou desanimado com o quadro que deparou, pois a doente no apresentava a mais leve melhora. E pensar que tudo fora causado pelas palavras levianas do irmo.
       Procuraria um advogado, para orient-lo. No queria opinies sobre assuntos profissionais ou matrimoniais. S queria saber como podia aumentar a distncia 
que devia haver entre ele e o cunhado.
       
       
       
       CAPTULO 3
       
       Paty fora procurada por um jovem que estava sendo acusado por um roubo de carro, seguido de atropelamento. Iria defend-lo, e estava preparando o processo 
respectivo quando bateram  porta. Levantou-se de m vontade, pensando que ia perder o cineminha que planejara.
       Abriu a porta, refletindo que nunca confiaria num advogado que atendesse  campainha da rua. Assim que ganhasse um pouco mais, contrataria uma jovem secretria, 
mas por ora isso ainda estava sendo impossvel.
       Seus olhos depararam com um rosto conhecido. O rapaz tambm a fitou com surpresa, por v-la novamente.
       - Gostaria de falar com o Dr. Clery.
       Foi a que Paty se recordou de onde o tinha visto. Era o homem que encontrara h algumas noites quando estava chegando  casa. Naquela ocasio o considerara 
um tipo esquisito, que ia se apresentando sem mais nem menos, e ainda dizia que estava cercado de solido.
       - Sou eu mesma. Pode entrar.
       - Ns j nos conhecemos, no?
       - Sim - confirmou a moa, acompanhando-o ao escritrio. - Ns nos encontramos na rua, lembra-se? O senhor me disse que seu nome era Jack e que estava sozinho.
       - A senhora tambm disse seu nome, mas infelizmente eu no o guardei.
       - Paty Clery... Sente-se, por favor. Sou bacharel em Direito e montei escritrio neste apartamento. Se quiser, poder despir o sobretudo.
       Sentiu que o rapaz estava hesitante, e lhe falou sem rodeios:
       - O senhor tem liberdade de escolher, pois nem todos confiam na capacidade de uma mulher, senhor...
       - Jack Frederick...
       - Ento, que decide? 
       Costumava ser cauteloso em tomar decises, mas naquele dia tudo estava acontecendo de forma diferente. Admirou-se por aceitar a sugesto que a moa dera - 
despiu o agasalho, colocando-o sobre uma cadeira, e ele prprio sentou-se perto da escrivaninha da advogada.
       Observava-a disfaradamente e a julgava uma mulher bonita, interessante, dona de olhos maravilhosos, enquanto procurava encontrar uma maneira para contar-lhe 
o caso que desejava solucionar. Ele, que sempre fora um indivduo desinibido, sentia-se constrangido diante daquela moa e, por isso, resolveu que abordaria o problema 
como sendo de um amigo ntimo que ele desejava ajudar.
       - Muitas pessoas ficam surpresas quando descobrem que este escritrio pertence a uma mulher - explicou Paty, com naturalidade. - Foi por esta razo que eu 
usei unicamente o sobrenome quando mandei fazer a placa que coloquei  porta. Os clientes jamais subiriam se soubessem que aqui est uma mulher para ajud-los.
       - No departamento jurdico de minha empresa no h nenhuma mulher trabalhando.
       - Tudo no passa de preconceitos antiquados. Eu, por exemplo, exero a profisso em trs assessorias diferentes.
       - E acho muito natural, porque o curso tanto  feito pelos homens, como pelas mulheres. E na mente humana no existem diferenas de aptido entre um homem 
e uma mulher.
       - Obrigada.
       - No sei como comear. A senhora tem experincia em questes judiciais?
       - Para lhe ser sincera, ainda no tenho grandes experincias na arte processual, mas eu a adquiro conforme vo surgindo os casos. Agora mesmo, estava preparando 
meu primeiro processo de roubo de carro, seguido por atropelamento. Esta ser minha primeira defesa neste campo, mas espero ganh-la. 
       - A senhora  muito corajosa.  
       Paty sorriu, mostrando uns dentes claros e perfeitos. Jack observou que ela era uma moa encantadora, parecendo recatada. No podia explicar por que se sentia 
to  vontade naquele encontro profissional; no entanto, no conseguia abordar o assunto que tanto o preocupava. Mas, no podendo dominar-se, acabou comentando:
       - Tem um aspecto muito jovial. H muito tempo que est trabalhando?
       - Exatamente h um ano, quando colei grau. No pense que foi fcil, pois comecei com uma mesa e duas cadeiras de pinho - sorriu, divertida. - No me atemorizei, 
e fui abrindo o caminho lentamente; contudo, consegui me libertar de certos jugos que me acompanhavam h mais de dez anos.
       - A senhorita mora sozinha? - perguntou, com cautela.
       - Felizmente. Sou filha nica e adoro meu pai, mas ele fez a tolice de casar-se em segundas npcias quando eu estava com dez anos, e nem pode imaginar o que 
sofri com a madrasta que ele me deu. Ainda hoje, cada vez que apareo por l, tenho de ouvir suas reclamaes tolas. Cheguei a jurar que no mais voltarei a casa 
de papai. Poderei v-lo no local de trabalho, sempre que sentir saudades dele, pois no suporto mais aquela mulher. Com estes problemas, pode ver que no estudei 
por esporte, e tampouco estou trabalhando por dilentatismo... Estudei por necessidade e a vida no me tem sido fcil... Bem, no sei por que estou falando tanto 
sobre mim, e esta  a primeira vez que isso acontece com um cliente.
       Jack tambm se mostrou loquaz, e comentou sobre mil assuntos diferentes, mas nenhum deles se relacionava com sua presena ali. Quando se aperceberam, j passavam 
das nove horas da noite.
       - Estou to solitrio como quela noite. Voc podia jantar comigo - convidou-a com naturalidade, abandonando o tratamento cerimonioso que vinha usando.
       - Eu...
       - Est bem, se no quiser, no faz mal...
       Paty pensou; por que no aceitaria o convite? Saiu com ele, e tiveram assunto para todo o tempo que passaram juntos. Seus pensamentos coincidiam plenamente. 
Quando se despediam,  porta da casa da moa, Jack disse, com indiferena:
       - Depois de toda esta agradvel conversa, eu no lhe fiz a consulta jurdica.
       - Pois volte amanh  tarde, e eu o orientarei no que for possvel.
       - Virei. Paty... 
       Ela j estava entrando, parou e olhou para ele.
       - O que , Jack? 
       - Queria que, soubesse que h muito tempo no encontro uma pessoa que tenha tanta afinidade comigo.
       - Obrigada. Eu poderia dizer a mesma coisa, Jack. Alis, j estou dizendo. 
       - At amanh. 
       - Estarei  sua espera.
       
       Teve medo de aparecer, pois pela primeira vez estava se sentindo atrado por uma moa agradvel e encantadora. E, para contrabalanar, sentia-se numa situao 
muito propcia a uma tentao como aquela. Seu casamento com Wanda fora motivado pela ambio e pela herana que o tio desta lhe deixara, mas ele nunca fora um homem 
destitudo de atrativos pessoais.
       Fora educado num ambiente de prosperidade, mas, na poca que mais precisava daquela opulncia, o pai perdeu toda a fortuna que possua. Depois, a vida transformou-se 
em dificuldades.
       O pai morreu na misria, sentindo-se cansado e desiludido, e sua me, no desespero por saber-se pauprrima. O nico que lucrou com essa infelicidade foi ele 
- jamais tivera amor pelos estudos e, de uma hora para a outra, tomou-se um estudante exemplar. Acabou o curso com distino, e pouco depois empregou-se na indstria 
de produtos qumicos dos Daton. 
       Decidiu rapidamente que o casamento com ela seria sua melhor soluo. Foi-lhe faclimo conquistar aquela moa sem muitos atrativos e complexada. E, em poucos 
meses, estava casado com ela.
       Fizera isso para ser proprietrio daquele monoplio, mas nunca pensou em engan-la com outras mulheres, embora Ed vivesse dizendo o contrrio.
       A verdade  que jamais a trara durante sua vida em comum; Ed  quem vivia inventando histrias de amor para contar  irm, transformando-a num poo de cime.
       Mas agora, de repente, algo novo comeava a surgir em sua vida. Algo que supunha j extinto. No esperava encontrar-se com uma mulher jovem e bela como Paty 
e, por isso, sentia-se um pouco temeroso, das conseqncias que poderiam surgir nos dias futuros. E se ele se apaixonasse? De fato, isso jamais havia acontecido, 
mas essa moa era diferente de todas as outras...
       Levou trs dias sem procurar Paty, mas no quarto apareceu em seu escritrio, sem conseguir vencer a tentao que o vinha perseguindo desde que a conhecera.
       Agora que ela vivia presente em seus pensamentos, at as impertinncias de Ed no o aborreciam tanto. Sempre fora um administrador amigo dos operrios e era 
amado por todos, mas ultimamente vinha notando que estes, sob a influncia de Ed, estavam lhe dando menos apoio e colaborao.
       Paty cumprimentou-o sorridente quando o viu.
       - Pelo jeito, voc no pde vir antes - foi seu nico comentrio.
       - Posso entrar, Paty?
       - Lgico... - retrucou ela, encaminhando-se para o escritrio, mas, antes de alcan-lo, virou-se e perguntou amavelmente: - Se quer me contar seus problemas 
enquanto tomamos um usque,  melhor irmos para a sala.
       -  assim que costuma tratar todos os seus clientes? - indagou, com ironia.
       - Claro que no... Nem sei explicar por que o convidei. Mas isso no tem importncia. Vamos para a sala, porque l ficaremos melhor instalados - respondeu, 
surpresa consigo mesma.
       Jack morava numa casa luxuosa, mas, ao entrar na salinha do apartamento, teve de reconhecer que era muito mais acolhedora. A seguir, despiu o sobretudo e 
se sentou numa poltrona.
       - Sua casa  encantadora - comentou, olhando para tudo. - Tem um toque muito pessoal.
       - Nunca tolerei intromisses desnecessrias - murmurou Paty, aproximando-se do bar. - Quer o usque com gelo. Jack?
       - Dois cubinhos, por favor.
       Entregou-lhe a bebida, sentou-se a sua frente, e os olhos de ambos se encontraram demoradamente, como se j se conhecessem h longos anos.
       - No tenho amigos - disse Paty, bebericando. - Tive, sim, muitos colegas de estudos, mas acabamos nos afastando totalmente. Inesperadamente, eu conheci voc 
e... adorei conhec-lo.
       Naquele momento, ele poderia ter dito que era um homem casado, que estava cercado de problemas e queria uma orientao, para saber como ia resolv-los. Mas 
tomou um gole de usque e falou unicamente:
       - Eu trabalho muito, e realmente no tenho amigos nesta cidade. Criei-me e estudei em Los Angeles - apanhou a cigarreira, abriu-a e a estendeu  moa. Ela 
pegou um e, quando ele achegou-se dela para acend-lo, sentiu o perfume que emanava de seus cabelos sedosos.
       Novamente, Jack sentiu-se atemorizado, sem saber como agir, pois jamais se tinha encontrado to  vontade na companhia de uma mulher. Nunca dantes isso havia 
acontecido. Se comeasse a recordar o passado, veria que nunca estivera to  vontade na vida. Quando criana, vivia cercado pelos empregados e professores. Os pais 
apareciam quando chegavam de alguma viagem, ou quando partiam para outra. Nestas ocasies, beijavam-no com carinho e consideravam cumpridas todas as obrigaes paternais.
       Pensou que, talvez, todas as ambies que possua estivessem respaldadas na carncia de afeto que o acompanhara constantemente no decorrer da vida. Suspirou, 
e Paty deu uma risada. 
       - Minha impresso  a de que tem uma grande amargura interior.
       Claro que a tinha - a amargura de ser um vencedor fracassado, embora fosse um homem sensvel e carinhoso, que vivia cercado de insensibilidade. Contudo, somente 
murmurou:
       - Sempre h uma amargura para ser vencida. No acontece o mesmo com voc?
       - Consegui subjugar todas elas, pela minha maneira de ser. Lutei sozinha, e hoje trabalho para poder viver, e vivo para poder lutar. Que mais eu poderia desejar? 
       Jack pensou que ele, entretanto, havia desejado muito mais e que, na realidade, conseguira muito menos, salvo a direo da fbrica, mas esta lhe seria retirada 
imediatamente aps o falecimento de Wanda. Pensou que muitas vezes havia planejado, fazer o que Ed vivia falando - fazer retiradas do capital para deposit-las em 
sua conta corrente, mas sempre ia protelando o dia em que devia comear, embora tivesse oportunidades sem-fim para realiz-las.
       - No fiquei complexada com a maneira de proceder da minha madrasta - comentava Paty, sem imaginar no que ele estaria pensando. - Sempre fui mais forte do 
que ela, e de nada adiantou querer prejudicar-me durante mais de dez anos.
       A moa soltou uma risada, e Jack se sentiu inferiorizado perante ela. Esta tambm era a primeira vez que estava tendo a impresso de trair sua mulher. Mas 
que ningum o condenasse por estar se sentindo assim, pois tinha certeza de que gostaria de ver aquela moa durante todos os dias que ainda tivesse de vida.
       - Voc nem imagina como ela fica atacada quando eu vou visit-los - prosseguia Paty, com bom humor. - Porta-se como uma louca varrida, e quanto mais grita, 
mais calma eu permaneo. Parece que lhe sou superior subconscientemente e que, de forma alguma, ela conseguir me ferir ou magoar. No pensa o mesmo em relao a 
certas pessoas? - a campainha tocou, ela foi ver quem era e retomou minutos aps. - Chegou um cliente, Jack. Espere por mim, que voltarei logo. Se quiser beber mais 
uma dose, apanhe o usque no bar e gelo na geladeira que est na cozinha. Voltarei logo - saiu, fechando a porta atrs de si.
       Jack recostou-se num sof, pensando que nunca experimentara aquela sensao de achar-se num lar, um lar gostoso e agradvel...
       Embora Wanda fosse uma mulher sem atrativos e bem mais velha do que ele, tudo teria sido diferente se tivessem filhos. Mas, agora, todos os fatos estavam 
num passado, porque ele acabara de encontrar algo muito valioso que estivera procurando, mesmo sem se preocupar com o que poderia encontrar.
       Olhou detidamente em todas as direes.
       Apanhou o copo e se levantou, circunvagando os olhos pelo aposento harmonioso, que aparentava um aconchego muito maior do que existia em sua casa luxuosa. 
Foi  cozinha, e a encontrou limpa e arrumada, to diferente de todas as outras que o haviam acompanhado pela vida - no era grande como a de sua casa em Los Angeles, 
e tampouco desarrumada como a de seu tempo de misrias. E a da manso onde morava quase sempre estava cheia de empregados solcitos, que se apressavam em atend-lo.
       Esta era o tipo da cozinha de um lar feliz.  Abriu a geladeira, apanhou cubos de gelo e os colocou no copo. Quando chegou  sala, Paty havia acabado de entrar.
       - Um furto. Um caso sem qualquer importncia, mas eu vou estud-lo e defend-lo. Era um pobre-diabo, que quer esclarecer o furto sofrido pela filha. No poder 
pagar-me, mas vou ajud-lo assim mesmo.
       - Se todos os casos forem semelhantes, voc no ganhar nem para o papel.
       - A maioria deles  assim. No podem procurar um advogado famoso, por carecerem de recursos para pagar-lhes os honorrios. E, com o auxlio que lhes dou, 
vou adquirindo a experincia que tanto necessito. Amanh mesmo me apresentarei  Vara onde o processo est correndo; e  desse modo que vou conhecendo o pessoal 
da Justia, com o qual terei de manter contato, dentro da profisso.
       - E tudo pelo esforo prprio - falou ele, de forma singular.
       - A gente s se realiza verdadeiramente quando consegue o sucesso por esforo prprio. Quando se vence, ganhando todos os trunfos numa bandeja, perceberemos 
um dia que no somos ns realmente os vencedores, mas sim todas as pessoas que nos ajudaram a alcanar o sucesso.
       Como ele. Sentiu-se inferiorizado, mas nada disse e procurou encontrar-se com olhar dela, mas Paty observou: 
       - Voc j est sabendo muitas coisas de minha vida, mas eu praticamente nem sei quem  voc...
       - Sou qumico - foi sua nica resposta.
       - Uma bela profisso, mas eu nunca fui dada a nmeros, por isso preferi o Direito.
       - No tem noivo? - perguntou sem querer.
       - No. Na verdade, nunca tive tempo para procur-lo.
       - E  obrigada a procur-lo? 
       - H uma grande diferena entre procurar e encontrar, voc no concorda?
       - Exato. Entretanto, achei que est um pouco pesarosa por isso.
       - Embora eu tenha sido criada por uma madrasta rabugenta, adoro a vida do lar, a ternura dos filhos e o amor e a unio que deve existir entre todos. Sei que 
no h casamento sem problemas e dificuldades, mas nele reside a verdadeira felicidade. No pensa como eu?
       - Estou comeando a pensar.
       - Comeando? - indagou, admirada. 
       Jack no lhe deu maiores explicaes, pois ele prprio estava se sentindo diferente, mas no saberia explicar os motivos desta mudana. S tinha noo de 
que cada vez estava ficando mais interessado por ela.
       - Voc no est noivo, Jack? - perguntou ela, de repente. 
       Jack achou que no estava mentindo se respondesse que no. Afinal de contas, ele no tinha uma noiva; se ela tivesse indagado se ele era casado, a sim, a 
resposta teria de ser outra.
       - No - respondeu suavemente.
       - Entretanto, j deixou de ser um garoto...
       - Lgico, estou com trinta anos...
       A campainha bateu novamente, e ela foi atender  porta, mas retomou em seguida.
       - Outro cliente, Jack. Voc me espera?
       No esperaria, e estava com medo de continuar privando da companhia daquela moa excepcional. Olhou para o relgio e falou rapidamente:
       - Tenho de ir. Qualquer dia destes, eu voltarei.
       - Venha na segunda-feira, Jack. Adoro conversar com voc. Puxa, ainda no me contou seu problema judicial - comentou, como se somente agora se tivesse lembrado 
desta questo.
       - Ele no se refere a minha pessoa, mas a um amigo, que me solicitou um conselho.
       - Tanto faz. Venha na segunda-feira e conversaremos sobre o problema, desse seu amigo. Est bem?
       Pensou que ia concordar, mas de repente viu-se falando de forma inesperada:
       - No quer danar esta noite? Eu poderia vir apanh-la dentro de duas horas. 
       - Danar? 
       - Por que no, Paty? Daqui a duas horas virei busc-la. 
       - Estarei pronta  sua espera. 
       Saram aquele dia e muitos outros, e nunca se lembravam da consulta que devia ser feita. Mas Jack continuava se sentindo cada vez mais preso a Paty. Parecia 
que ela era um complemento de sua vida, em todos os sentidos. Mas ainda no a tinha beijado.
       
       
       CAPTULO 4
       
       Foi naquela segunda, pois nunca falhava s segundas-feiras. Nelas, no havia visitas de clientes depois das seis horas. Bebiam usque, conversavam sobre mil 
assuntos diferentes e ela sempre perguntava rindo, ao se despedirem:
       - Puxa, querido, no fez ainda a consulta...
       Ele tambm ria, e respondia invariavelmente:
       - Parece que a vida do meu amigo j est entrando nos eixos...
       Mas no estava. Ed fizera um grande escndalo  porta do sanatrio, e os mdicos resolveram que era prefervel ele entrar, porque assim evitariam complicaes 
maiores. Com as visitas do irmo, Wanda continuava piorando, e na fbrica a situao ficava cada vez mais difcil.
       Era forado a pagar os salrios, mas os operrios no estavam rendendo como deviam. Ed era o cabea de todo aquele movimento. Jack se desdobrava para terminar 
cora a greve incipiente e silenciosa que se propagava entre todos, chegando ao ponto de prejudicar a entrega s distribuidoras.
       Andava nervoso, e s descansava quando estava ao lado de Paty. Naquela noite haviam conversado muito, como sempre, e na hora da despedida a moa pegou o sobretudo 
para vestir-lhe.
       Jack, de repente, sentiu uma inquietude muito grande. E ele, sempre to senhor de si, notou que palpitava de desejos.
       - Jack, por que no veste o sobretudo? - indagou, meio constrangida.
       Ele fez um gesto brusco, arrancou-lhe o sobretudo das mos e o jogou numa poltrona; depois, procurou-lhe os olhos com avidez. Paty enrubesceu.
       - Que est acontecendo, Jack?
       No respondeu imediatamente, deu alguns passos e colocou as mos nos ombros da moa.
       - Voc sabe o que , no?
       Talvez, pois compreendia que sem a presena de Jack no poderia viver. Que os momentos mais deliciosos que tinha eram aqueles, quando estavam juntos conversando 
e bebericando. Que, de uma forma ou outra, vivia dependendo daquelas noites de segunda-feira, quando ele sempre chegava ao anoitecer. Depois, percebia o silncio 
e a monotonia que se estendia por toda sua ausncia...
       - Paty, por favor, no me diga que ainda no sabe.
       No tinha certeza de nada, e nem sabia por que precisava de sua presena, mas naquele momento, com seus olhos nos dele, estava compreendendo muitas coisas, 
e foi com simplicidade que se deixou abraar. Jack cruzou os braos em torno dos ombros de Paty e procurou-lhe a boca.
       E a encontrou, clida e suave, j se perdendo na sua. Trocaram um beijo longo e apaixonado, que mais parecia no ter fim.
       As mos dele desprenderam-se das costas da moa e escorregaram em direo aos seios. Ela soltou um grito abafado, depois falou entre dentes:
       - V embora... V de uma vez.
       - Paty...
       - V embora.
       Jack suava copiosamente. Nunca havia desejado uma mulher to intensamente. Se tivesse conhecido Paty antes, jamais teria casado com Wanda. Parecia que o sangue 
lhe fervia nas veias. Passou as mos pelos cabelos empapados e os jogou para trs.
       - Voc entende o que estou sentindo, no  verdade?
       Paty entendia o que ela prpria estava sentindo - palpitaes na fronte e o corao querendo saltar-lhe do peito.
       - V embora - sussurrou. - Volte na prxima segunda.
       - E pensa que eu posso esperar tanto?
       - Por favor... - implorou.
       - Est sendo mais forte do que eu. 
       Paty encostou-se  parede, achando agradvel o frescor do cimento, que acalmava o calor que sentia.
       - Paty, qual  sua opinio?
       No sabia o que responder. Depois de tantos meses de convivncia, s agora dava conta do desejo e do amor que possua.
       - Por favor, v embora. Eu tenho de meditar.
       - H necessidade?
       - Temos de pensar muito.
       Automaticamente, Jack vestiu o sobretudo e se encaminhou para a porta, mas, antes de abri-la, virou-se e murmurou:
       - Paty, nem sei o que devo dizer a voc.
       - Ento no fale nada. 
       - E voc acha que nada tenho para dizer?
       - Deve ter, como eu tambm tenho... mas  melhor... ficarmos calados.
       - E acabar estourando.
       - Por favor, Jack...
       Ele a fitou com nsia e indagou:
       - O que est me pedindo por favor, Paty?
       Nem ela mesma sabia... Juntou as mos sobre os seios e o contemplou demoradamente
       Jack afastou-se dela, e teve mpetos de lhe contar toda a verdade - comentar sobre a sua infncia maravilhosa, e depois a pobreza que tiveram de enfrentar. 
A dificuldade encontrada para se habituarem a uma vida diferente, com os padres econmicos bem mais inferiores. Contar-lhe sobre a revolta, o dio que sentiu ao 
saber-se pobre. O seu casamento por convenincia, s porque a moa era rica.
       Como podia ter ficado to cego por causa do dinheiro?
       Agora estava amando de verdade. Amando uma mulher linda e encantadora, e no entendia como pudera ter coragem para casar-se com Wanda.
       Se tudo no tivesse acontecido daquela maneira... Se Wanda no tivesse enlouquecido, por causa das mentiras de Ed, ele jamais teria conhecido o que era o 
amor. Mas, felizmente, agora o conhecia, pois estava apaixonado por aquela garota. 
       - Jack, v embora, porque ambos temos de pensar profundamente - pediu Paty, num sussurro.
       Por que no lhe contava a verdade? Nunca pensara que pudesse ser mesquinho a esse ponto, pois nem coragem tinha para confessar-lhe que era um homem casado. 
Tinha certeza de que a perderia, assim que ela soubesse da existncia de Wanda.
       Paty aproximou-se lentamente dele e, alando uma das mos, afagou-lhe o rosto.
       Era uma mulher bonita, elegante e charmosa. Naquele momento trajava um vestido azul, que lhe modelava o corpo perfeito. Os olhos estavam brilhantes e a boca 
lhe lembrava o beijo apaixonado que haviam trocado.
       - J pedi para voc ir embora, Jack.
       - E voc?
       - Eu ficarei aqui.
       - No percebe que eu anseio por t-la aos braos?
       No era por pudor que ela se negava, pois Paty era uma mulher at certo ponto independente. Contudo, vivia se perguntando se seu amor era to grande que valesse 
uma entrega total.
       - Paty, em que est pensando?
       - No sei. Tudo aconteceu multo de repente.
       - E por que continua lutando contra voc mesma?
       - Para poder continuar sendo a pessoa que sempre fui - murmurou, passando os dedos nos cabelos do rapaz. Este no se conteve e cobriu aquela mozinha de beijos.
       Ele prprio estranhava as sensaes que o empolgavam naqueles dias.
       Paty despendeu algum esforo e conseguiu liberar a mo que estava aprisionada entre as dele. Logo depois abriu a porta.
       - Volte na segunda-feira. Todas as segundas-feiras ficarei esperando por voc.
       - Virei antes - gritou Jack.
       - Venha sempre que quiser...
       - Paty, voc no percebe como estou me sentindo?
       - Lgico... Mas deve aprender a se dominar, assim como eu o fao - confessou inesperadamente.
       Jack fechou a porta e olhou com nsia para ela.
       - Querida, por que no poderia ser hoje mesmo?
       - Hoje? - indagou baixinho, como se estivesse falando para si prpria.
       - . Hoje... agora...
       No. No tinha certeza se aquele sentimento era forte e duradouro. 
       
       
       CAPTULO 5
       
       Abriu a porta, com a meiguice que sempre a acompanhava, e sussurrou:
       - Hoje no. Tenho que pensar muito, Jack.
       - Em qu?
       - Nem eu prpria sei.
       As mos de Jack danavam em seu corpo e a sentiam trmula sob os carinhos que lhe faziam.
       - Jack, eu estou implorando...
       - O qu? - perguntou, com a voz embargada, e sentindo raiva por ter casado com Wanda.
        No aceitava mais aquele casamento por interesse, embora tivesse atravessado os anos em fidelidade  mulher. Mas agora tudo estava ficando difcil. Afinal 
de contas, era homem e no um ser estranho que s visava ao dinheiro, poderio e riquezas.
       Agora s desejava Paty. Queria senti-la sua. Esse era seu maior anseio, e nada mais lhe interessava no momento.
       - V embora, Jack.
       - Repare s como eu estou - sussurrou, mostrando-lhe os dedos, umedecidos do suor que lhe escorria pelo rosto.
       No precisava dizer-lhe nada, pois ela compreendia muito bem a situao, sentindo-se tambm palpitante e inquieta.
       - Paty... deixe-me ficar aqui - pediu, procurando abra-la.
       Ela estava fremente, sem poder precisar quais as causas que a tinham deixado assim. Seria por causa de Jack, das sensaes desconhecidas que lhe estavam sendo 
reveladas por ele? Como podia se sentir assim, se nada sabia da vida dele? Mas no queria pensar naquele instante, s queria sentir-se abraada por ele.
       Jack estava com o corpo colado ao dela e avidamente beijava-lhe os lbios.
       Ambos tremiam, e sabiam-se carentes daquelas carcias e daquelas palavras bobas que estavam sendo formuladas entre os beijos que se davam.
       No soube quando ele despiu o sobretudo e, abraados, voltaram para a sala novamente.
       - No - pediu ela. - Eu preferia que voc fosse embora. 
       Mas continuavam andando para a sala, ambos abraados. Jack, com as mos danando em seu corpo e a beijando sem parar.
       Pensou no pai, madrasta, nos clientes, mas ningum parecia ser importante para ela naquele momento... S Jack.
       De repente, entraram no quarto, e ela hesitou.
       Enfim, o que iam fazer? E ela, que sempre fora to decidida, ia se deixar vencer por uma onda de desejo?
       - Jack, no sei se estou querendo - murmurou, com uma voz que nem parecia sua.
       - Ns dois estamos querendo a mesma coisa - exclamou ele, desesperado.
       - Nem sabemos o que queremos. Acho melhor nos darmos um tempo, para definirmos os nossos sentimentos. Eu jamais me entregaria a um homem se no o amasse profundamente.
       Embora Jack estivesse ofegante, palpitante e excitado, no se esquecera de que era um homem comprometido. Paty murmurou-lhe ao ouvido:
       - Volte  na  prxima   segunda-feira, Jack... At l j poderei ter avaliado os meus sentimentos. Esta  a realidade que se impe. Ns precisamos agir com 
calma e cabea fria. 
       Soltou-se dos braos, e o empurrava para a porta.
       Jack no queria sair, compreendendo que nunca se sentira to ansioso por uma mulher...
       No tinha domnio sobre o desejo que o Invadia, mas Paty o empurrava para a porta, com aquela suavidade to sua...
       - S acontecer quando eu tiver certeza absoluta.
       - De qu? - queria saber Jack, com curiosidade.
       - Dos meus sentimentos.
       - Eles no esto  flor da pele?
       - Estes so somente desejos...
       - E, por acaso, no esto ligados aos sentimentos?
       - Hoje sim, mas amanh?
       Quem naquele instante poderia lembrar-se do dia de amanh? Nele estariam os problemas da fbrica, as discrdias provocadas por Ed, a situao dos mdicos 
do sanatrio, que viviam pensando no bom nome do mesmo...
       - Ento, voc est me mandando embora, Paty?
       - No. Estou pedindo que se v, por enquanto.
       - E no percebeu como estou me sentindo?
       - Est igual a mim - disse Paty, baixinho, empurrando-o com doura para a porta.
       Nunca encontrara outra pessoa assim to meiga, delicada e sensvel. No a foraria, de modo algum, mas sempre podia apelar um pouco.
       - Paty, eu amo voc.
       - Sim, Jack.
       - Voc no entende o que eu quero faz-la compreender?
       Claro que o entendia muito bem. Mas sempre fora fria ao tomar as decises. Tudo poderia acontecer num segundo, mas depois, como agiriam?
       No. Nunca seria irresponsvel num assunto to importante. Ainda no tinha certeza de nada, embora estivesse se sentindo envolvida por uma nuvem de desejos; 
mas no ia ceder to facilmente.
       - Venha ver-me na segunda.
       - Paty...
       J estavam na porta, e ela lhe oferecia o sobretudo novamente. Jack vestiu-o automaticamente.
       - Paty, estou completamente arrasado.
       Aceitava a idia de sab-lo assim, porque tambm tinha a impresso de ser uma boneca sem corao, incapaz de dedicar-se a um sentimento profundo, embora sabendo-se 
apaixonada por ele.
       Jack era um misto de dio e paixo, quando se viu sozinho no corredor do edifcio. No conseguia mais entender sua vida, suas ambies desmedidas...
       Quando chegou  rua, no foi diretamente para casa. Aquela noite seria a primeira, na qual procuraria a companhia de uma mulher, desde o dia de seu casamento 
com Wanda.
       Levou o tempo todo pensando em Paty. Quando chegou  casa e se deitou, lembrou-se dos pais e dos raros beijos que ganhava deles. Procurou pensar em outras 
coisas, mas em momento algum recordou-se de sua vida com Wanda.
       O perodo vivido com ela nada representava se comparado com o que estava vivendo com Paty. Nunca havia amado tanto uma mulher, e tudo mais se tomava insignificante 
em relao a ela.
       A empresa no atravessava seus melhores dias, mas, no final, todos os seus problemas seriam resolvidos. Os operrios continuavam recebendo os salrios, ainda 
que no estivessem produzindo como deviam.
       Mas ele j no se preocupava com o que pudesse acontecer com aquele monoplio. Nem parecia o homem que havia lutado com unhas e dentes para consegui-lo.
       Olhou para a cama enorme, e se certificou de que realmente no sentia saudades de Wanda, mas seria capaz de entregar a alma ao diabo, se este lhe prometesse 
que Paty estaria logo ali com ele. Esta garota no precisava de riquezas para atra-lo, bastava continuar sendo como era...
       S gostaria de saber se ela o amava, se bem que desconfiasse de que sim.
       
       - As coisas esto malparadas - disse um dos advogados a Jack. Mas para ele nada era novidade, pois vinha prevendo isso h algum tempo e desconfiava que elas 
ainda piorariam. - Jack, voc no est preocupado?
       - Claro - respondeu, com calma. - Ed  o nico culpado por todas as irregularidades que esto ocorrendo.
       Resolvera prejudicar tudo que o cunhado fizesse, mas este no estava preocupado. Se as mesmas coisas tivessem ocorrido h alguns meses atrs, ele seria capaz 
de estourar, mas agora estava desligado de todos os negcios e problemas que pudessem aparecer...
       - Jack, estou falando com voc.
       - E eu estou escutando o que me diz.
       - Pois no parece.
       - Que quer que eu faa?
       - No final, tudo acabar resolvido.
       - No ser to fcil como pensa, porque h uma fortuna pessoal envolvida em todas as transaes.
       - Uma indstria sempre devia se valer de seus prprios recursos, Jack. Jamais devia lanar mo das fortunas individuais.
       Seria timo se isso fosse possvel, porm dentro da situao atual, quanto mais fora Ed fizesse para destru-lo, menos ele herdaria no momento adequado. 
Sempre julgara o cunhado como um homem ignorante, e agora ele estava comprovando este julgamento, embora todos os advogados continuassem apoiando o representante 
dos Daton. E, depois da falncia, nada mais poderia ser feito.
       - Se o velho Daton estivesse em seu lugar, ele estaria agindo diferente de voc, Jack.
       Era exatamente o que ele teria feito h dois meses atrs, mas agora tudo podia ir para o diabo.
       - Temos pedidos e no podemos atend-los, Jack. Coisas impossveis esto acontecendo nesta empresa. Paga-se os salrios aos operrios, eles comparecem normalmente 
ao servio, no entanto no produzem tanto como deviam. Seria bem mais interessante se deflagrassem uma greve abertamente, Sabe o que poder acontecer se no houver 
uma reao? 
       - Lgico. Estamos no caminho da falncia.
       - Se no tomar uma medida drstica, jamais encontraremos uma soluo e continuaremos navegando  deriva. Convoque uma assemblia geral e comunique a todos 
que a situao est ficando crtica; que se eles continuarem na operao tartaruga, todos os salrios devero ser congelados por tempo indeterminado, alm da possibilidade 
de haver demisses em massa.  a pessoa escolhida para este encargo, Jack, pois sempre soube administrar os homens com acerto e segurana.
       Jack correu os olhos ao redor, pensando que todo o entusiasmo que sentia em relao  empresa havia desaparecido completamente.
       - Muitas vezes comentei sobre o comportamento de meu cunhado - observou, com indiferena. - Ele nunca apoiou meu casamento com a irm, e faz tudo para prejudicar-me. 
No compreendo sua maneira de ser. Wanda  uma mulher doente e sem filhos. Depois de sua morte, ele ser o nico herdeiro dos bens dos Daton. Mas se continuar fazendo 
tantas tolices, acabar herdando migalhas, em vez de milhes.
       O advogado havia sido amigo do velho tio falecido e, de forma alguma, reprovaria os atos de um Daton.
       - Temos de reconhecer que Ed jamais saberia orientar um movimento como este. Desconfio que ele teve sua origem nos sindicatos e influncias polticas. Creio 
que voc conseguiria muito mais se convocasse uma assemblia. No pode continuar agindo unicamente como um burocrata.
       Apesar de todos os conselhos, continuou trabalhando no escritrio, sem se envolver diretamente com as irregularidades existentes. Como tinha uma procurao 
de Wanda, outorgando-lhe plenos poderes, pde sacar dinheiro de sua conta corrente, a fim de fazer frente s despesas que se avolumavam. Pagou os ordenados do pessoal, 
no ignorando que esta medida acabaria debilitando a empresa, at lev-la  falncia. E que a todos os culpariam pela runa da mesma. Por isso, fez questo de que 
todos os gastos fossem supervisionados pelo contador e por um dos advogados da indstria. 
       Este ltimo surpreendeu-se com a situao.
       - No podia ter feito isso, Jack. Acabar provocando a derrocada da firma, pois dentro de seis meses ela no possuir capital para o giro.
       - Diga isso mesmo a Ed.  bom que ele saiba que estamos usando a fortuna pessoal do velho Daton.
       - E por que eu deveria contar-lhe?
       - Talvez esse seja o melhor modo de acabar com os problemas que existem na fbrica. Raciocine, e veja se eu no tenho razo.
       Devia ter, porque naquele mesmo dia Ed apareceu em seu escritrio. Estava furioso e parecia um leo enjaulado. Nesta altura dos acontecimentos, Jack j no 
tinha mais dvidas sobre sua culpabilidade. Ed no desejava comandar? Pois ele de bom grado lhe passaria o leme. Havia lutado para conseguir o comando, mas, desde 
que conhecera Paty, aquilo j no o encantava mais.
       Nem parecia ser o mesmo homem que vivia dominado pela ambio. Criara-se rico, mas depois o pai perdera a fortuna, e ele, ainda adolescente, prometeu-se que 
um dia seria rico novamente. Depois disso, atravessou anos s desejando cumprir a promessa que se fizera. Mas, quando conhecera Paty, at seus desejos foram modificados.
       O entusiasmo esmorecera, e no pensara continuar batalhando por algo que acabaria em mos estranhas. Estas deviam ser as de Ed, pois os mdicos no tinham 
esperanas na recuperao de Wanda; e, mesmo que esta acontecesse, jamais ela teria condies para assumir a direo da empresa. Se tudo ia acontecer desse modo, 
que a vontade de Ed tambm fosse realizada...
       - Menos barulho - reclamou, quando o cunhado entrou. - No se esquea de que est no meu escritrio, e v logo desembuchando o que tem para me dizer. Mas, 
antes, eu quero avis-lo que, se continuar com sua poltica, esta acabar arrasando a herana de seu tio. Sempre houve mais facilidades para a destruio do que 
para a construo, principalmente quando se visa a um determinado objetivo ou sucesso. Pense que para a construo de um prdio so necessrios centenas de homens 
trabalhando, por uma longa temporada. Para a demolio do mesmo, s so necessrios um guindaste, uma carga de dinamite e dois paus de fsforos, e tudo cair por 
terra em menos de meia hora. E  isso que est acontecendo com o capital da fbrica. No me culpe depois pelos insucessos porque eles no dependem de mim, e de nada 
adiantar sua revolta agora. Olhe para mim e veja como eu me conservo calmo.
       - Voc sempre foi um homem frio, que no tem capacidade nem para estourar.
       Jack pensou que j estivera temeroso em muitas ocasies, mas agora seus interesses eram outros, e no seria ele quem havia de cont-los para o cunhado. Estava 
desejando acabar aquela conversa para fechar o escritrio e correr  casa de Paty. Embora no fosse segunda-feira, ele no podia deixar de visit-la.
       - Voc est sacando da fortuna pessoal de meu tio? - gritou Ed.
       - No encontro outra sada. O pessoal continua comparecendo diariamente e no produz o suficiente. No estamos ganhando para saldar nossos compromissos. E 
nem posso deixar de pagar-lhes as dirias a que fazem jus.
       Ed estava desanimado, e Jack continuou com desinteresse:
       - No serei um privilegiado, quando muitos no tiveram a liberdade de se explicarem. E se eu comeasse a falar, teria de explicar que no so os operrios 
que esto descontentes, mas voc que os est liderando, no pior sentido possvel. Se, pelo menos, eles se declarassem em greve, se solicitassem aumento ou outra 
qualquer melhoria... Mas no, comparecem ao trabalho e no produzem. Geralmente, estes movimentos representam a morte de uma empresa. Ed, nunca entendi o testamento 
de seu tio, como tambm no entendo seu modo de agir. Voc vive lembrando que ser o nico herdeiro de Wanda porque ela no tem filhos. Alis, isso mesmo  o que 
reza o testamento - explicou, dando de ombros. - O que no entendo  o item que se refere ao divrcio, pois se ele ocorresse, sua irm seria deserdada.
       - Mas tambm reza que o herdeiro ficaria na obrigao de mant-la.
       - S fico imaginando como voc a trataria, se eu por acaso viesse a solicitar o divrcio, deixando-a no abandono - murmurou Jack, divertido.
       - Muito melhor do que voc, que nem tem ido visit-la.
        Falava a verdade. No se esquecera dela, mas agora dava mais ateno a Paty. Nunca amara a esposa, mas tinha-lhe uma grande amizade, e s no pedia o divrcio 
para casar com a mulher que amava, porque no confiava no modo como Ed trataria a irm.
       Sabia que no ia cuid-la como ele o estava fazendo. E, dentro de pouco tempo, ela seria transferida do sanatrio de luxo, onde estava internada, para um 
hospital estadual.
       - Ed, vou dar-lhe uma explicao, e voc a aceite se quiser. Procure controlar os empregados e deter esse motim que voc mesmo incentivou. Sei que dificilmente, 
poder dominar a situao atualmente. Se no conseguir, eu usarei a fortuna pessoal de seu tio para saldar todos os compromissos, e dentro de um ano todo este poderio 
poder ser embargado pelos bancos. Mas, quando o dinheiro acabar, pedirei emprstimos, mediante a hipoteca das maquinarias que possumos.
       - Voc s agir assim para poder demonstrar que tem mais fora do que eu.
       - No procuro ser melhor ou pior do que qualquer outro. Mas acontece que eu conheo os segredos do negcio muito melhor do que voc. Por esta razo, eu fui 
o escolhido pelo seu tio para ser chefe em seu lugar. Ele desejava que Wanda se casasse e tivesse muitos filhos... embora saibamos que, pela idade que tinha, s 
poderia ter um ou dois, talvez quatro, no mximo. E reconheo que estes seriam suficientes, para manterem o imprio criado por ele. Entretanto, voc est querendo 
destru-lo, e eu gostaria de saber com que intuito. Eu, felizmente, tenho um diploma e conhecimentos. Com eles, poderei trabalhar em qualquer lugar, mas voc s 
tem lngua para falar, idias de ser um homem milionrio, mas do trabalho, que  bom, no entende patavina.
       - Est me chamando de burro?
       - At de besta, se voc achar melhor - retrucou, com ironia. - J conhece minha proposta. Ou voc acalma os nimos amotinados, ou ento acabar pauprrimo, 
porque no serei eu quem vai explicar aos homens o que est sucedendo. Eles devem entender que a situao no est nada boa e que, se continuarem assim, seria melhor 
se comeassem a procurar um outro emprego.
       - Nomeie-me subdiretor e farei o que me pede.
       Jack levantou-se e o olhou como se estivesse vendo um louco em sua frente.
       - Se o seu tio no o escolheu, no serei eu quem vai cometer esta burrada - falou pausadamente, abrindo a porta para sair e dando a conversa por terminada. 
- Foi voc quem arranjou as complicaes, e agora as destrinche sozinho. Boa tarde.
       - Espere.
       - J falei o que tinha de falar, e no o nomearei para nada. Um dia, ser o nico dono deste monoplio, e eu saberei demonstrar-lhe que no me apoderei de 
um centavo indevidamente. No sou rico, embora desejasse s-lo, mas tenho duas mos e um crebro para trabalhar em qualquer lugar. Pense em tudo que falei; a paz 
entre todos  mais interessante para voc do que para mim. Contudo, no se esquea que revolver nimos  fcil, mas sempre  difcil quando temos de apazigu-los. 
Tomara que possa triunfar entre os operrios, e desejo que algum dia possa herdar uma firma importante e conceituada, e no o conjunto de papis em que ela est 
se convertendo. 
       Saiu porta afora.
       Ed tentou acompanh-lo, mas ele j estava descendo pelo elevador. Ed decidiu que ia falar com os amigos, para eles retomarem ao trabalho com entusiasmo. Esperava 
convenc-los com facilidade.
       
       
       CAPTULO 6
       
       Foi ela quem lhe abriu a porta. Olharam-se carinhosamente, e ela sorriu com meiguice, sussurrando em seguida:
       - Estou com um cliente. Espere-me na sala porque eu voltarei logo.
       - No vai demorar muito? - indagou, com amor.
       - S alguns minutos... 
       - Ento volte logo.
       Ela confirmou com um movimento de cabea e entrou no escritrio. Jack despiu o sobretudo, entrou na sala e acendeu a luz de um abajur.
       A sala era acolhedora, e propiciava a intimidade e o descanso. Ele acomodou-se no sof que estava colocado num dos cantos da sala e acendeu um cigarro, que 
fumou devagar, achando-se surpreso por no estar preocupado com as bobagens de Ed. Se isso tivesse acontecido antes de conhecer Paty, estaria morrendo de dio, tendo 
mpetos de matar o cunhado. Mas agora s se preocupava com aquele apartamento delicioso, que o fazia desejar um lar idntico.
       Pensou que  mulher era a pedra fundamental de um lar. Pensou em sua famlia, na me, que vivia desejando sempre as coisas mais caras; na casa onde fora criado, 
ela mais parecia um mercado de empregados, onde cada um fazia o que tinha vontade.
       O pai vivia para satisfazer as vontades da mulher, a ponto de comear a minguar a fortuna que possuam, at perd-la completamente.
       Depois no souberam adaptar-se  pobreza e nem houve harmonia entre eles. O pai vivia cansado, desanimado e renegando sua sorte madrasta, arrependido por 
no ter valorizado a verdadeira sorte que o acompanhara. A me, que mais parecia um manequim desfilante, transformou-se em pouco tempo numa criatura mal-humorada 
e resmungona.
       "Creio que eu fui o nico que aproveitei o infortnio que se abateu sobre ns", pensou, No entanto, ficara possuidor de uma ambio e uma ganncia desmedidas. 
Por causa delas, fora capaz de vender sua vida e liberdade por um imprio, que agora comeava a desmoronar.
       - J cheguei - avisou Paty, entrando.
       Jack levantou-se e perguntou-lhe com carinho:
       - Por hoje est encerrado, no, Paty?
       - No sei. Um cliente sempre pode aparecer de repente, de um momento para o outro. A menos que voc me queira contar o problema de seu amigo.
       Nunca falaria dele, pois ela era muito inteligente e se aperceberia de toda a verdade.
       - Parece que as coisas esto se arrumando - replicou, com cuidado, atraindo-a para si. - Essa consulta nos foi valiosa, Paty. Por causa dela, ns nos conhecemos.
       Beijou-a com ardor, e depois comentou:
       - Ontem  noite fui forado a procurar uma companhia, que alis no me satisfez.
       - Por favor, Jack... - pediu, abraando-se a ele.
       Ele beijou-a demoradamente. Paty sentia-se palpitante, tendo a impresso de que tudo girava  volta de si e que o sangue fervia nas suas veias.
       - Jack... vamos nos sentar.
       - Espere - e voltava a beij-la com sofreguido. 
       Embora o momento estivesse sendo maravilhoso, Paty desvencilhou-se dos braos dele.
       - Sente-se, Jack.
       - Voc pensou em ns?
       - No... Tive medo. H certas coisas que me assustam, Jack... Eu no sei quem  voc. O que faz, o que pensa, de onde veio, e aonde vai quando sai daqui...
       - Terei de responder a todas essas divagaes?
       - No... Mas conte-me algo de sua vida.
       - Voc me contou algumas coisas de sua vida, Paty. Mas, se por acaso no me tivesse falado sobre ela, isso no faria diferena para mim, pois tenho a impresso 
de que a conheo por longos anos. S sei que nos amamos e nos desejamos. O restante s  fantasia.
       - Como foi sua infncia?
       - Igualzinha  de todos os meninos ricos que so atendidos por criados atenciosos, mas frios. Que tm pais que se do perfeitamente, mas que quase nunca se 
recordam da criana carente de afeto. Acredito verdadeiramente que at hoje minha personalidade sofre influncia daqueles dias. Nunca tivera quimeras ou ideais antes 
de conhec-la. De repente voc apareceu, e eu esqueci de todos os perodos trgicos de minha vida.
       - Quer uma bebida? - perguntou Paty, aproximando-se do bar.
       - Sim. Eu nunca havia conhecido um lar to aconchegante como o seu, e tampouco sentira desejos de constituir uma famlia completa... Agora tudo me parece 
diferente, tenho a impresso de que todos os objetivos de minha vida esto acomodados dentro destas paredes.
       - Irei buscar o gelo. 
       Tocaram a campainha no momento em que Paty retornava da cozinha.
       - No atenda - pediu Jack.
       - Este  meu trabalho, Jack. E, por muito que goste de voc, no me descuidarei de minha profisso. Virei logo.
       A consulta foi mais demorada que as comuns.
       - Um caso de divrcio - foi comunicando, assim que entrou. - No tolero trabalhar em divrcio, acho que fiquei acomplexada com o primeiro caso que me apareceu, 
logo depois de formada.
       Jack bebericou o usque, procurando ver os olhos dela.
       - O que alegam desta vez?  
       - Infidelidade, como sempre.
       - E voc condena a infidelidade?
       - At certo ponto, sim. Condeno o adultrio, quando baseado exclusivamente no sexo, mas o desculpo quando entremeado por sentimentos profundos. Jamais aceitaria 
um casal que se mantivesse unido por interesses econmicos, por preconceitos falsos que condicionam algumas vidas. Desculpo plenamente os casais que erram em seus 
deveres quando forados por sentimentos importantes como o carinho, o amor e necessidade de uma convivncia mtua.
       - Com isso, deduzo que os sentimentos so os mais importantes para voc.
       - Certo. A gente ama ou no ama. Condeno todo o desejo que se satisfaz somente com a posse fsica momentnea, que gera um prazer fugaz. Sou de opinio que 
o desejo sempre devia estar misturado com os sentimentos sinceros.
       Jack soltou o copo de bebida na mesa e se aproximou dela. Pegou-lhe o rosto entre as mos e o levantou.
       - Paty, o que voc sente por mim?
       - Um sentimento, disso tenho certeza absoluta.
       Beijou-a apaixonadamente, sentindo um prazer imenso. Paty permanecia quietinha entre seus braos, olhando-o com os olhos verdes que fulguravam naquele momento.
       - No acha que nossa amizade pode ser perigosa? - disse depois.
       - No. Pensei muito sobre ns.
       - E a que concluso chegou?
       - Se eu continuar espremida como estou, no poderei explicar-lhe.
       Jack soltou-a, bebericando novamente. Naquele momento a campainha soava outra vez.
       - Acabarei sentindo dio de seus clientes.
       Ela levantou-se para atender  porta, acarinhando-lhe os cabelos com muita ternura.
       - Pense bem no que eu vou lhe dizer, Jack. Minha concluso foi bem simples. Eu amo voc.
       Saiu correndo e ele fez meno de segui-la, mas Paty sussurrou-lhe:
       - Quando acabar esse usque, apanhe outro no bar. O gelo est na geladeira.
       Ficou sozinho, pensando que devia lhe contar sobre sua verdadeira situao. No era um homem livre, no entanto estava enganando uma moa formidvel como Paty.
       Mas no conseguia encontrar foras para ser desprezado por ela...
       
       
       CAPITULO 7
       
       Demorou a aparecer. Jack j estava cochilando quando Paty entrou na sala, procurando fazer o menor rudo possvel.
       - Acredito que tenha sido o ltimo de hoje. Hoje no  segunda-feira?
       - Nem sei em que dia estamos.
       - No deve ser segunda-feira, pois nesses dias sempre encerro o expediente s seis horas, e j passam das nove. Quer que eu prepare alguma coisa para voc 
comer?
       Jack no pde deixar de pensar na casa maravilhosa em que morava, cercado de empregados para o servir. Na sala de jantar enorme, nas peas de valor que possua 
e na esposa que estava internada no sanatrio...
       No suportava mais aquele ambiente, e se pudesse no voltaria mais para l, mas infelizmente teria de retomar. J h quatro dias no ia visitar Wanda. No 
estava tolerando aquela situao artificial, pois ultimamente s se sentia bem na casa de Paty, deitado no sof e a vendo movimentar-se pela sala. Era uma garota 
maravilhosa, totalmente diferente de todas as outras; uma dona de casa exemplar, embora entremeando os servios caseiros com os clientes que a procuravam.
       - Ficarei para jantar com voc, Paty.
       - Pode continuar deitado  esperando pelo jantar ou, ento, ir para a cozinha comigo.
       - Irei com voc - disse, levantando-se.
       Paty amarrou um avental na cintura e comeou a se movimentar agilmente dentro, da cozinha diminuta. Jack comparou-a com a me e suas reclamaes, quando era 
obrigada a realizar essa tarefa domstica.
       - No sou uma boa cozinheira, mas sirvo para quebrar o galho - criticou-se rindo. - Voc poderia pr a mesa.
       - Eu?
       - No me diga que no sabe - exclamou, admirada, colocando uma panela no fogo.
       - Creio que sei.
       - Apanhe uma toalha nessa gaveta. Na de cima esto os talheres, e naquele armrio os pratos. No se esquea de enfeitar a mesa com o vaso de flores. Adoro 
mesas enfeitadas. 
       Nada fez do que lhe era pedido, mas abraou-a pela cintura e a beijou na nuca.
       - Paty, voc  essencial num lar - sussurrou, j sobre os lbios da jovem.
       - A mesa...
       - Depois.
       - Quando?
       - Logo...
       Afastou-se suavemente dos braos de Jack, e cada vez ele estava mais extasiado pela delicadeza que havia em toda ela.
       - No se esquea das flores, Jack - pediu, retirando a carne do forno e colocando o omelete na frigideira.
       Jack seguira suas instrues, e tinha a impresso de que ia haver um banquete naquela cozinha minscula.
       - Estou tentando descobrir que horrio folgado voc tem, para poder comprar flores naturais - comentou, ao sentar-se.
       - Ora, quando eu volto das assessorias jurdicas... Aproveitemos este momento, no qual nos sentimos liberados de nossas angstias, para conversarmos sobre 
o amigo que est precisando de sua ajuda para resolver seus problemas.
       - Ele  casado.
       - E da?
       Jack sentia o suor escorrer-lhe pelas costas, e isto era a prova caracterstica de que estava ficando nervoso, sem saber o que devia responder-lhe realmente,
       - O problema  que ele est apaixonado por outra mulher.
       - Sempre poder abandonar a menos amada, por muito dedicada que ela seja... Quando no existe amor num casamento, ele no passa de uma encenao fictcia.
       - Mas acontece que h dinheiro no meio.
       - Nesse caso, ele fica mais mesquinho ainda. Qual dos dois  o rico? E qual se mantm casado somente por interesse?
       - O marido. Casou-se apenas porque desejava ser rico.
       - A histria est ficando mais triste do que eu pensava. Jamais poderia ser amiga de seu amigo - disse seriamente.
       - A histria  um pouco longa, Paty - falou ele, provando o vinho com precipitao, quando era um tipo tranqilo por natureza. - Muitas coisas concorreram 
para ela, e eu no saberia dizer-lhe quais foram as mais importantes. S quero que saiba que meu amigo no teve culpa de nada.
       - Discordo. O culpado do fracasso matrimonial foi ele unicamente. Casou-se por dinheiro e sem sentir afeto pela noiva - analisou Paty friamente. - Sabemos 
que o dinheiro  a mola essencial da vida, Jack, mas todos devemos trabalhar para possu-lo. Um homem  muito comodista quando se casa com uma mulher abastada, s 
para esquivar-se dessa batalha obrigatria da vida. Eu o censuro e condeno, sabe? O que anda fazendo esse seu amigo?
       - A esposa est internada num sanatrio psiquitrico, e  bem mais velha do que ele.
       - No se concebe que um homem tenha coragem de casar, sem sentir o menor laivo de amor. No compreendo nem aceito pessoas mercenrias como ele. O que ser 
que tem no lugar onde deviam estar os sentimentos?
       - Eu j tinha falado que este assunto estava sendo resolvido... - murmurou Jack, esforando-se por parecer natural. - Meu amigo no ama a mulher, mas continua 
fazendo todas as suas despesas no sanatrio, e a visita com freqncia. S no se divorcia porque com isso iria prejudicar sua sade abalada. Alm disso, se ele 
se divorciasse, todos os bens que pertencem a ela passariam para o poder do irmo. E este, certamente, pouco se interessaria pela doente. Ele sabe que, em poucos 
meses, ela seria transferida para um hospital estadual, onde jamais poderia ter o tratamento como o que recebe agora.
       Paty havia terminado de jantar e parecia distrada. Comeou a tirar a mesa, guardando cada coisa em seu lugar, e o silncio chegou a ficar opressivo. 
       Depois de arrumar a cozinha, Paty olhou para Jack, que continuava sentado, tendo um aspecto desolador.
       - Vamos para a sala, Jack - convidou-o. - L, voc poder encontrar novas justificativas para seus erros.
       Sabia que isso ia acontecer. Ela era muito esperta e inteligente, alm de possuir uma perspiccia especial para se introduzir nos pensamentos das pessoas 
que lhe interessavam.
       Sentia-se humilhado e envergonhado perante ela. Jogara-se numa poltrona e continuava meditativo.
       - Vou fazer um caf - avisou Paty, dirigindo-se para a cozinha e demonstrando grande frieza ao trat-lo.
       - Por que no me arrasa de uma vez? No h necessidade de me julgar to severamente, pois reconheo meus erros e minhas qualidades - gritou, passando os dedos 
pelos cabelos. - Poderia justificar-me pois tenho motivos de sobra para faz-lo. Se voc fosse outra mulher, tudo seria mais fcil. Mas voc  diferente e especial, 
e foi por esta razo que eu me apaixonei por voc. Com ela foi diferente - eu s comecei a cortej-la depois da morte do tio, que lhe legou toda a fortuna pessoal, 
inclusive uma empresa de produtos qumicos, da qual eu poderia ser o presidente. Sei que me considera um homem vil e mesquinho, e estou convencido de que agi como 
tal. - falou desesperado.
       - Eu era um rapaz que nunca tivera o afeto de ningum, nem mesmo de meus pais. Criei-me sem ternura ou amor, e esta circunstncia transformou-me num homem 
frio e calculista. Sempre fui um sujeito que primeiro refletia para depois agir normalmente. Isso foi o que aconteceu at o dia em que bati nesta casa. Naquela poca, 
eu ainda lutava para manter-me na direo da empresa e desejando matar meu cunhado porque ele vivia interferindo em minha vida funcional - emudeceu um momento, mas 
Paty continuou calada. - Casei-me sem amor, com uma mulher mais velha do que eu, e nada bonita. Sei que tudo est sendo condenvel perante seus olhos e que jamais 
me dar seu perdo. Entretanto, nunca eu a tinha trado, at agora. Embora no a amasse, sempre tive um grande respeito por ela. Depois, o irmo comeou a aborrec-la, 
contando-lhe minhas aventuras, que alis foram criadas por sua frtil imaginao. A partir da, minha vida tornou-se insuportvel, pois ela comeou a ter crises 
de cimes freqentemente.
       Levantou-se e comeou a andar pela sala, sob o olhar perplexo de Paty. Em seguida continuou;
       - Eu me sentia orgulhoso, pela honestidade que tinha em relao  firma e pela fidelidade  minha mulher. Mas Ed continuava contando  irm milhes de fatos 
irreais. E, um dia, seus cimes transformaram-se em dio. At me jogou um jarro, que quase me pegou na cabea. Depois desse dia, a mesma cena foi repetida inmeras 
vezes, e a minha vida ficou sendo um verdadeiro Inferno. No me olhe desse modo, porque no tencionava intern-la, mesmo sofrendo horrores em sua mo. Mas, ainda 
assim, continuei sendo fiel  mulher que escolhera, por ambio, s porque desejava ser rico novamente. Nunca antes eu me sentira apegado por uma mulher. Sempre 
as procurava, mediante pagamento em dinheiro. Da, pode deduzir que eu estava acostumado a comprar o amor, com a mesma facilidade como compraria um utenslio de 
uso prprio - continuava contando e se aproximando da porta. 
       - Estava h cinco anos na fbrica e continuava como um simples qumico que trabalhasse para uma firma importante. J conhecia Wanda, pois ela aparecia por 
l de vez em quando, para visitar o tio poderoso que morava com ela. S pensei no casamento, depois do falecimento deste tio, que a deixou como sua nica herdeira. 
Conquistei-a facilmente. E hoje sou grato por todas as coisas que aconteceram desde ento. Se elas tivessem sido diferentes, eu no teria tido a oportunidade de 
conhecer voc, Paty. No teria me apaixonado, e continuaria sendo um marido indiferente e frio para Wanda.
       Paty viu quando ele vestia o sobretudo e abria a porta do vestbulo. No o reteve, sabendo que ele precisava de solido e paz, para poder decidir sobre o 
que iria fazer.
       Depois de ele ter sado, Paty comeou a limpar os cinzeiros que estavam transbordando, enquanto meditava sobre tudo que acabara de ouvir.
       Nunca soube quanto tempo esteve nesse estado de prostrao. Sobressaltou-se quando ouviu o timbre da campainha. Olhou para o relgio e viu que j passava 
de meia-noite.
       
       
       
       CAPTULO 8
       
       O primeiro mpeto foi de no atender. Vivia num bairro comercial repleto de desocupados, e um deles poderia estar batendo  porta. Mas nunca se considerava 
como uma covarde e, por isso, resolveu abrir a porta.
       - Jack, voc voltou? - exclamou, surpresa.
       Ele entrou, sentindo-se completamente areo. Estava plido e abatido.
       - Nunca fui um tipo sensvel, dado s emoes. Nem a loucura de Wanda conseguiu alterar-me. Mas hoje estou me sentindo arrasado, s em pensar que posso perder 
sua estima e carinho... Dei voltas por milhes de ruas, e minha cabea est ardendo - falou com desespero. - Eu no voltaria para casa, sem antes passar por aqui. 
Acredite-me, foram os mdicos que aconselharam o internamente de Wanda. Eu s desejava faz-la feliz... o mximo que fosse possvel, dentro das circunstncias, tendo 
de levar em conta que ela me amava.
       Paty o escutava em silncio, compreendendo que ele tinha necessidade de expandir-se. Continuava amando Jack como sempre. Naquele momento, no procurava avaliar 
os erros e falhas do homem, mas sim os sentimentos que tinha por ele.
       Despiu-se o sobretudo e o jogou numa cadeira.
       - Sente-se, Jack - falou com ternura. - Pode continuar falando, se tiver vontade. Tenho a impresso de que voc necessita de desabafar h muito tempo, mas 
nunca houve ningum que se interessasse em ouvi-lo. Acho que, dentre todas que podiam ouvi-lo, eu sou a pessoa mais indicada para faz-lo, porque tambm sou quem 
mais o compreende.
       - Tinha necessidade de voltar, para poder dizer-lhe tudo que estou sentindo, pensando e sofrendo.  um absurdo, mas atravessei anos tendo conscincia de estar 
fazendo o que realmente queria, mas, de um momento para o outro, vejo que no estou interessado na indstria, nas maldades de Ed ou na loucura de minha mulher. Nunca 
supus que pudesse ter tanta sensibilidade abrigada em mim... Paty, parece que tudo est me falhando, mas eu no estou me importando. S no desejo afastar-me de 
voc, ou vislumbrar desprezo nesses olhos verdes, quando eles pousarem em mim. Paty, acha que sou um ser desprezvel? - desabafou com emoo, tendo o rosto da moa 
entre seus dedos.
       - No,  Jack.  Mas agora acalme-se. Nunca pensei v-lo to excitado como agora. Por favor, procure acalmar-se. Vou dar-lhe um vinho do Porto, para melhorar.
       Afastou-se e foi buscar a bebida. Quando a entregava, Jack prendeu-lhe os dedos entre os seus.
       - Paty, nunca pensei que algum dia fosse sofrer tanto - falou num sussurro, provando a bebida, que ela lhe dera. Depois contou-lhe tudo que vinha acontecendo 
na fbrica, as estripulias de Ed e o dinheiro que retirara da conta particular de Wanda. - Agora, nada mais me interessa. No ambiciono fbrica, poder ou dinheiro. 
Primeiro, idealizei construir uma fortuna pessoal, de forma tal que ningum pudesse me acusar de desonesto. Mas, de repente, eu conheci voc. Vim procur-la, para 
pedir-lhe uma orientao sobre o modo como devia agir com Ed; mas quando cheguei e olhei para voc, esqueci-me de todos os problemas que vinham me perseguindo. Moro 
numa casa maravilhosa, mas onde nunca tive a paz e a tranqilidade que encontro neste apartamento.
       Paty levantou-se do cho, onde estava, e se aproximou dele. Pegou o copo de bebida e o colocou na mesa suavemente.
       - Nada do que est acontecendo me desespera ou traumatiza tanto como uma idia que me atormenta, pois no suportaria saber que voc s sente desprezo por 
mim.
       - Eu no o desprezo, Jack - retrucou, baixinho. - Talvez eu sinta piedade, por ver que voc est se despindo da insensibilidade que o acompanhou no decorrer 
da vida. S idealizou recuperar o que havia perdido na adolescncia e, com isso, no observou as belezas que poderia ter aproveitado.
       Houve um silncio prolongado. Depois, Jack deu um suspiro profundo. Paty debruou-se sobre ele, pegou-lhe o rosto com as mos e, sofregamente, procurou-lhe 
os lbios.
       Ela sabia como Jack estava carecendo de sua compreenso. No lhe desculpava os defeitos, mas ele era o homem que ela amava, e sofria por sab-lo to desesperado 
e aflito.
       - Como advogada, eu o aconselharia a despedir Ed, sem fazer-lhe presses especiais. Mas, como mulher, eu pediria para voc abandonar a empresa e solicitar 
o divrcio, esquecendo-se completamente do passado e dos aborrecimentos que teve.
       - No estou preso quele monoplio pela nsia do poder. Wanda no pode ser entregue ao irmo, pois este seria capaz de transferi-la para um hospital do Estado. 
Ele  um homem torpe, que jamais defender os direitos de Wanda. Como no tivemos filhos, tudo passar para as mos de Ed, em caso de morte ou divrcio. E eu no 
quero que isso acontea. Gosto de Wanda como se pode gostar de uma pessoa infeliz e desgraada. No soube dar-lhe felicidade, no por causa de meu egosmo, mas pelas 
maldades de Ed, s quais no consegui desmentir.
       - Mas voc no pode ser responsvel por elas, Jack.
       Sacudiu a cabea, no querendo pensar em Wanda, Ed ou na empresa. S queria esquecer-se de sua angstia nos braos de Paty. Naquele momento, s havia duas 
coisas importantes para ele - um homem e uma mulher, que estavam apaixonados.
       - Estou sozinho e prestes a abandonar a fbrica. Talvez eu a entregue ao Ed, desde que ele me assine um documento, pelo qual se comprometa em deixar Wanda 
no mesmo sanatrio onde se encontra. Pode ser que ela at se recupere, se ficar afastada de mim. Farei Ed se comprometer legalmente, mediante documento assinado 
em cartrio, que, se isso, acontecer, ela ser regiamente tratada fora ele.
       - E voc, o que faria, Jack? Comearia novamente em outra firma, partindo da estaca zero? Talvez no suporte a idia de ser um empregado normal, sem prerrogativas.
       - Se eu tiver voc, Paty, jamais me considerarei um funcionrio desclassificado, trabalhando em qualquer lugar. Nesse caso, s poderei ser um marido afortunado.
       - Voc foi um rapaz muito ambicioso, e s pela ambio abandonou tudo que d felicidade  vida: as distraes, os prazeres, a prpria felicidade... Viveu 
uma vida incolor, s porque se sacrificou ao poder. Ser que no futuro voc no ser novamente subjugado por ele, depois de eu deixar e ser a sensao do momento?
       - Isso jamais acontecer!
       Paty afastou-se, mas ele foi atrs dela.
       - Deixe-me passar esta noite aqui, com voc. Ns podamos nos conhecer mais profundamente, atravs de dias e noites; se depois, ns nos apercebermos de que 
no nos entendemos, podemos ir cada um para seu lado... dizendo-nos adeus.
       - No, Jack - disse ela rapidamente. - Voc talvez no saiba o que quer, mas eu sei, e no tenciono equivocar-me neste campo. No desejo ser a sofredora neste 
caso, e tampouco vou pedir-lhe para apressar o divrcio. Entretanto, continuaremos vivendo como at agora. Desejo ardentemente ser sua mulher, mas ainda ignoro se 
seu amor  verdadeiro. Isso  difcil de se explicar, compreende? Mas no desejo perder minha tranqilidade, ou am-lo agora, para ser uma vtima amanh. Eu no 
suportaria isso, e no pense que estou presa a preconceitos tolos e antiquados. Sou uma mulher emancipada h muito tempo.
       - Pelo que vejo, tambm no gosta de mim - reprovou-a.
       Olhou-o fixamente, mantendo-se sria e compenetrada.
       - Creio que voc est enfrentando uma crise sentimental onde os sentimentos se conflagram, trazendo uma grande ansiedade, da qual ningum poder liber-lo, 
a no ser voc mesmo. Formei-me em Direito e desejo triunfar na minha profisso, mas quero subir degrau por degrau, por meu esforo prprio, saboreando minhas lentas 
vitrias. No vou negar o amor que sinto por voc e a vontade que tenho de me entregar agorinha mesmo em seus braos. Mas, por isso, s teramos aborrecimentos e 
inquietudes no futuro, quando chegssemos  fase de comparaes. No gostaria de ser apontada como a causadora de seus insucessos... Por isso, peo-lhe um favor, 
no volte aqui to cedo.
       - No v que est me privando do nico consolo que me resta? - exclamou, desesperado.
       - No acredito que uma pessoa, que levou a vida inteira subjugada pela ambio, possa recuperar-se momentaneamente. Eu sei, e aceito que tenha se mantido 
fiel a sua mulher, mas somente porque foi fcil prescindir do amor. Agora, tudo  diferente. Est apaixonado por mim, mas eu ainda no sei se ser capaz de abandonar 
tudo por mim.
       
       
       
       CAPTULO 9
       
       Jack jogou-se numa poltrona, sentindo-se extremamente desanimado e angustiado.
       - Quer que eu me divorcie de Wanda? Quer que eu abandone tudo que se relacione com a fortuna dos Daton?
       - No, Jack, no  isso que estou desejando. Se agisse assim, os problemas ainda continuariam, e um dia voc acabaria arrependido por t-lo feito. Deve esforar-se 
para salvar o que existe e seja digno de salvao. Pense na conscincia e no carter, que se encontram entorpecidos pela ambio. Mas voc tem condies de vencer 
a si prprio. Eu ficarei aqui, sempre esperando pela sua volta, pois o amo. No desejo que continue pensando que eu me nego hoje, por um capricho ou falta de amor. 
Mas acontece que, mesmo o amando demais, no consigo esquecer-me de certas coisas, embora procure esquec-las. Sempre fui uma pessoa sincera comigo mesma, e no 
poderia enganar-me ou engan-lo agora. V confiante, e volte somente depois de ter resolvido sua vida, da forma que melhor lhe aprouver. Pode vir, divorciado ou 
no, porque isso no teria importncia para mim. At toparia visitar sua mulher algumas vezes, se voc me pedisse. J lhe disse que no tenho preconceitos tolos, 
e confio no amor sincero e verdadeiro que deve existir na vida de um casal. O importante neste momento  voc saber salvar tudo que ainda possui e que est se perdendo 
aos poucos, pela sua maneira de ser. Procure vencer-se.
       Jack levantou-se, tendo a impresso de que acabara de levar uma surra. Chegava a estar cambaleante em frente  moa.
       Procurou reagir, sem afastar os olhos do rosto dela. Pegou-lhe a mo e a deixou entre as suas, com carinho. Depois abraou-a, e ela nada fez para afast-lo.
       - Voc me conhece profundamente e sabe que sou um homem de valores positivos, embora contaminado por uma ambio desmedida, semelhante a uma doena perniciosa 
que danifica toda minha vida.
       - Exatamente, Jack.
       - Est bem, eu me modificarei, Paty. Mas por favor, no me pea para afastar-me de voc. Virei v-la todos os dias.
       - Venha somente s segundas-feiras, Jack.
       - E deverei contar-lhe as coisas que estou realizando?
       - No. S falaremos sobre ns... O que voc fizer, ou o que eu estiver fazendo, no nos deve preocupar. Teremos milhes de assuntos para tratar e no h necessidade 
de comentarmos o nosso dia-a-dia. No estou interessada em saber como est aplicando a fortuna dos Daton, e nem voc precisa saber dos problemas de meus clientes. 
Poderemos ser amigos e... entenda bem, s seremos amigos e nada mais.
       Ele no resistiu e fechou-lhe a boca com os lbios. Aquele momento foi crucial para Paty. Ela o amava e era uma mulher sensvel e ardorosa; e ele era o homem 
que a fazia vibrar profundamente.
       Contudo, conseguiu empurr-lo, com suavidade e energia ao mesmo tempo.
       Jack sempre se sentia tocado quando ela agia daquele modo, que demonstrava toda a doura e segurana que possua. Ele era muito humano, pena que Paty no 
pudesse descobrir esta verdade.
       No a deixou fugir de seus carinhos facilmente. Paty esteve a ponto de se deixar levar pela empolgadura que sentia, mas dominou-se e o empurrou novamente, 
afastando-se. Pegou o sobretudo com as mos trmulas e o entregou a Jack.
       - Paty, no se domine tanto - implorou, abraando-a com nsia.
       Ela pensou em entregar-se s sensaes que a invadiam... Tinha mpetos de colar o corpo de encontro ao de Jack e lhe buscar a boca com sofreguido, esquecendo-se 
de todos os problemas que os cercavam.
       Contudo, uma vez mais sua vontade frrea foi mais forte do que as fraquezas que a tentavam. Desde menina no se deixava vencer e no seguia os impulsos momentneos. 
Quantas vezes se calara diante das grosserias da madrasta, tendo vontade de rebater-lhe do mesmo modo. Como havia se sacrificado para estudar, desejando muitas vezes 
mandar tudo para os diabos! Mais tarde, quando veio morar sozinha, em alguns dias beliscava o alimento, a fim de que pudesse sobrar para o seguinte; nada a impedia 
de voltar para a casa do pai, mas havia sua vontade de continuar sendo independente.
       No. No podia ser fraca num momento to capital como aquele.
       Pensando como sempre fora, encontrou foras para desvencilhar-se dos braos que a apertavam amorosamente. No duvidava do amor que ele lhe tinha, mas no 
conseguia esquecer-se do mal que o atormentava - a ambio era uma molstia que s poderia ser curada mediante o prprio esforo.
       - Voc prefere que eu v embora, no , Paty? - indagou Jack, num sussurro.
       Levantou os olhos tristonhos para ele e Jack se sentiu desarmado, sentindo-se culpado pelo sofrimento dela.
       Sentou-se desalentado e pediu, balbuciante:
       - Diga-me tudo o que est pensando, Paty.
       - Estou pensando que voc  um homem sem piedade. V embora, e procure consolos onde os encontrar... Mas, se isso acontecer, mais uma vez eu me certificarei 
de que sou mais forte que voc. E tem mais, minha fora intima acabar me convencendo de que voc no  uma pessoa digna do meu amor.
       - Voc tem razo. Desculpe-me.
       - Agora, sim, voc j pode sair, Jack.
       - Perdoe-me, pela minha teimosia - murmurou, com carinho. - No tenho direito de sacrific-la a este ponto. No devo tentar subjug-la, principalmente porque 
sei que tem mais fora moral do que eu...
       - Boa noite, Jack.
       - Mas j  madrugada, Paty - disse ele, olhando o pulso.
       - . O que eu imaginava.
       - Continua zangada comigo, no ?
       Ela agiu com naturalidade. Aproximou-se dele e arrumou-lhe os cabelos, que estavam alvoraados.
       - Eles esto quase alcanando os olhos - foi seu nico comentrio.
       Ele apanhou a mo dela e beijou com ternura.
       - Paty, eu daria tudo para poder recomear minha vida neste momento. Retornando ao dia em que sofri o golpe do destino, ficando pobre da noite para o dia; 
mas desejaria ter ao meu lado uma pessoa como voc, que me ensinasse a ver a vida por um prisma bem diferente. Voc foi uma menina cercada de problemas e atribulaes, 
e foram eles que a transformaram na mulher maravilhosa que . Teve experincias que no podem ser esquecidas e, com a ajuda delas, soube forjar esse carter que 
possui. Eu, entretanto, no tive nada disso. De um momento para o outro, passei a ser o tronco envelhecido, que no fora cuidado na juventude.
       - No fale desse modo, Jack - puxou a mo que estava entre as dele, e o rapaz caminhou cambaleante para a porta, enquanto continuava sussurrando:
       - Gostaria se saber o que voc est esperando de mim. Se um final triunfador e herico, ou uma derrota arrasante.
       - No sei, Jack. Qualquer coisa que acontea, quero que seja unicamente o resultado de sua vontade, e no pela influncia que eu possa exercer em sua vida.
       - O que faria, no meu lugar? - perguntou, com a mo no trinco da porta. - Sei que no titubearia diante do dever.
       - Agora sei o que eu gostaria de fazer, mas no sei se teria foras de levar minha vontade ao fim, se tivesse passado por todas as experincias que voc viveu.
       - Adeus, Paty. Virei sempre v-la. 
       - Mas nada me conte do que estiver fazendo.
       - Prometo que no - relanceou os olhos pelo ambiente e pediu: - Mas no me tire o prazer que sinto quando fico nesta salinha to aconchegante. Adoro este 
perfume que voc usa. Todo o apartamento recende a ele.
       - Eu o esperarei na segunda-feira. Nelas sempre tenho menos clientes. Jamais poderia abandon-los para dar ateno a voc. Trabalharei durante toda minha 
vida.
       - Acho que voc me julga como um homem que s deseja mandar e sentir a fora o poder.
       - Foi o que voc fez, embora tivesse de sacrificar sua prpria felicidade, no?
       - Sim. Fiz isso mesmo - sussurrou, abriu a porta e saiu.
       Paty continuou imvel enquanto ouvia os passos que desciam as escadas, sem fazer uso do elevador.
       Quando ele alcanou a rua estava comeando a amanhecer. Apanhou o carro e comeou a rodar pelas ruas de San Diego, enquanto a claridade do dia ia crescendo. 
No foi para casa, e continuou rodando at ir para a fbrica.
       Mandou chamar Ed, assim que chegou, mas a secretria dele avisou:
       - Ele no est, senhor.
       - Mas j devia estar aqui.
       - Discutiu com os operrios, e eles o agrediram desapiedadamente. Agora est internado no hospital...
       
       
       CAPTULO 10
       
       No foi diretamente ver Ed. Resolveu que primeiro iria visitar Wanda.
       Chegando ao sanatrio, procurou por Greg em seu gabinete.
       - Pensei que voc no viria mais aqui - foi o cumprimento do mdico, que estava apreensivo com sua ausncia. - Sente-se, Jack... Recebeu a carta que eu lhe 
mandei? No creio, porque eu a coloquei ontem na caixa.
       - No tenho podido vir. Mas, como passei aqui por perto, decidi entrar. Wanda, como est?
       - Das faculdades mentais, muito melhor. Mas, como tem andado aptica e com febre, resolvemos fazer-lhe um exame completo. Para isso tivemos que convocar mdicos 
de fora, pois no contamos com especialistas. Mas o resultado no se fez esperar. Wanda est sofrendo de uma molstia incurvel.
       No mesmo instante, Jack esqueceu-se de Paty, de Ed e de todos os outros problemas.
       - Fale claro, Greg. No sinto amor por minha mulher, mas lhe tenho uma grande amizade, e at poderamos ter sido felizes se no tivssemos tantas intromisses 
em nossa vida.
       - Sei disso. Mas esse assunto nada tem com sua demncia. Est muito doente, e a vida dela pende por um fio. A opinio de todos os mdicos  que dificilmente 
poder salvar-se. A complicao  no fgado, e  de carter mortal. De nada adiantaria uma operao e, alm disso, seu estado anmico no permitiria uma de emergncia. 
Est no quarto, cercada de todo o conforto, como sempre, mas continua aptica e distante. Seu corao tambm tem apresentado algumas deficincias.
       - Est querendo me dizer que, alm da loucura, ela tambm tem um cncer no fgado e o corao est enfraquecendo? - indagou, alarmado.
       - Voc conseguiu descrever o quadro clnico com exatido, embora usando palavras de leigo.
       - Irei v-la - murmurou, sentindo uma ponta de remorso. - Com toda certeza, voc tambm me considera um tipo desumano, no  verdade, Greg?
       - Absolutamente: S acho que terminou sendo uma vtima de sua prpria ambio.
       Percebeu que o mdico o compreendia muito bem. Entrou no quarto da doente. Ela estava plida e jazia desacordada, sendo atendida pela enfermeira e a auxiliar.
       - Ela est mal - disse-lhe Dolly.
       - Estou percebendo
       Tentou reanimar a esposa, mas esta no reagiu. Saiu de l cabisbaixo, e pensou que tinha muitas coisas que deviam ser feitas com urgncia. Foi direto para 
a fbrica, onde todos os operrios continuavam de braos cruzados, sem nada produzir.
       Assim que chegou ao escritrio mandou chamar todos os assessores. Queria falar-lhes com calma, sem lutas ou brigas.
       - Quero me retirar legalmente da empresa - falou-lhes,  guisa de iniciar uma conversao.
       - O que o senhor est dizendo?! - perguntou um deles, surpreso.
       - Que vou me afastar desta rede de intrigas. Acabei de passar entre os operrios, e todos estavam fumando e batendo papo como se estivessem numa reunio social. 
No farei outras retiradas bancrias, para poder pagar-lhes os salrios... No temos mercadorias para serem entregues, e a situao est piorando com o passar dos 
dias. Renunciarei  procurao plena que recebi de minha esposa; ela est pior, seu estado inspira cuidados e, depois, minha renncia dificilmente poder ser aceita. 
Prefiro que seja agora, quando ainda tenho razes para uma justificativa.
       - O senhor no sabe ainda o que aconteceu?
       - No exatamente - respondeu, com um ar cansado. - Disseram-me que Ed desejou que os operrios recomeassem a trabalhar, e estes se revoltaram contra ele 
e o acabaram agredindo de tal modo que sua internao tornou-se necessria. Eu me afastarei agora de todos os bens dos Daton - casa, fbrica, procurao, tudo... 
Os senhores ficaro como os responsveis pelo negcio, at o retomo de Ed, pois ele  quem dever orient-los, a partir de agora.
       - A nica pessoa que tem capacidade para continuar na direo  o senhor. Basta convocar uma assemblia e falar francamente com todos sobre a situao.
       - Eu no farei isso, pois j no me interesso pelo futuro da indstria. Amanh mesmo vou comear a procurar um emprego. Lamento pelos senhores.
       - Jack - chamou-o o advogado mais idoso.
       - No adianta, Walter - disse meneando a cabea - Tenho de organizar minha vida, porque no posso viver dependendo dos Daton. Procurem Ed, e lhe digam para 
resolver todas as embrulhadas que foram criadas por ele mesmo. Passarei por um cartrio e registrarei minha renncia. Nela esclarecerei os motivos que me foraram 
a essa medida.
       S foi ver Paty depois de legalizar seu afastamento da direo da indstria, mas nada lhe contou sobre o que estava acontecendo. Portou-se como um homem educado 
e nem sequer falou-lhe de amor, pois no desejava tent-la.
       Quando saiu da casa de Paty, comprou os jornais da tarde, para ver se encontrava um anncio de emprego. Mudara-se para uma penso, e todos os dias ia visitar 
Wanda, que no apresentava qualquer melhora. Tivera uma conversa com Greg, e nela foi combinado que todas as despesas, do tratamento que ela precisasse, seriam custeadas 
pelo marido.
       - Mas Jack, isso ficar muito pesado para voc.
       - No faz mal. Eu serei o responsvel por Wanda at seu ltimo alento. No precisa se preocupar.
       - E voc est com dinheiro para pagar este sanatrio luxuosssimo?  
       - Trabalharei para poder faz-lo. Fui eu quem a internou e sei que ela nunca foi feliz a meu lado. O essencial, agora,  a assistncia que ela dever ter 
at o ltimo instante de vida.
       Wanda ainda durou muito tempo. Ele se desdobrava, entre a doente e o emprego que arranjara num laboratrio. Todas as segundas-feiras ia ver Paty, mas esta 
nada sabia dos apuros que ele estava enfrentando. Sentia dificuldade para manusear novamente os microscpios, depois de ter levado tantos anos sem fazer uma simples 
anlise. Felizmente, tudo que fazia estava sendo aprovado pela direo do estabelecimento. Quando o desnimo chegava, ele pensava em Paty e sempre descobria novas 
fontes de energia, que o faziam encorajar, a fim de poder continuar aceitando as lutas do dia-a-dia.
       Todos os dias passava pelo hospital. Wanda continuava piorando. J estava endividado, pois o ordenado que recebia no laboratrio no cobria as despesas da 
esposa doente. Tinha a impresso de que era dessa forma que poderia se redimir de todos os erros do passado, pois Wanda no tinha culpa pelo que estava sofrendo, 
e ele se impunha deveres mximos, embora nunca a tivesse amado.
       - Jack, voc est ficando muito abatido - disse Greg, certo dia. - E eu no posso fazer redues nas despesas porque no sou o proprietrio do hospital, mas 
unicamente o diretor. Por que no me deixa falar com o irmo dela?
       - J lhe expliquei que por este motivo eu jamais me divorciarei. Se isso acontecesse, Ed ficaria sendo o responsvel por Wanda, e logo a transferiria para 
um hospital estadual, onde ela morreria, sem ter os tratamentos de que necessita.
       - O fim est se aproximando. 
       - Estou preparado para ele.
        Tinha certeza de que Paty nada sabia, pensando que ele ainda continuava na empresa dos Daton. Nunca mais haviam trocado qualquer carcia, mas naquela segunda-feira 
no conseguiu ir v-la.
       A sombra da morte pairava na cabeceira de Wanda, e ele no teve coragem de abandon-la. Nunca a amara, mas era-lhe grato por tudo o que ganhara da vida, atravs 
de sua pessoa. Por ter casado com ela, satisfizera muitas das ambies que o perseguiam h longos anos.
        Ed no conseguira contornar a situao irregular que ele mesmo criara. Os jornais sempre escreviam artigos sobre os problemas que continuavam fervendo na 
indstria de produtos qumicos.
       Wanda faleceu naquela mesma madrugada. E foi Jack quem tratou de toda a cerimnia fnebre, e tambm quem a levou  sepultura, no jazigo perptuo da famlia, 
onde j estava seu tio.
       Foi l que se encontrou com Ed. Ele estava magro e abatido, aparentando cansao. No parecia sensibilizado pela morte da irm, mas sim angustiado pela situao 
que no conseguia contornar. Aproximou-se do fretro de Wanda e murmurou para Jack:
       - Preciso falar com voc, assim que terminar esta encenao.
       - Tenha mais respeito, porque  o enterro de sua irm.
       - Pode lhe dar o nome que quiser.
       - Pois ento fale aqui mesmo - murmurou Jack, inclinando-se para apanhar uma flor que jogou dentro do nicho, onde fora depositada a urna morturia. - No 
disponho de tempo para conversas. Diga logo de uma vez o que quer.
       - Voc tem de me ajudar - falou Ed rapidamente.
       - Por que eu?
       - Volte, e eu pagarei o que pedir. Vejo que no tenho capacidade para controlar aquela situao horrorosa. Os advogados da empresa j arranjaram outros empregos, 
o gerente pediu demisso irrevogvel, e eu tive de aceit-la. Estou sozinho.
       Fitou-o normalmente, e no sentia qualquer sabor de vitria. S pensava em Paty e no lar agradvel que teriam. Tambm pensava que ela teria de ajud-lo na 
manuteno do apartamento, pois o ordenado do laboratrio era pequeno por ora.
       - Jack, estamos quase falindo.
       - Lance mo da fortuna particular de seu tio.
       -  o que estou fazendo para cobrir as despesas da fbrica. O Estado no permite a suspenso dos pagamentos, e os operrios no se acalmam e vivem querendo 
receber cada vez mais. J no se recordam do tempo em que eram os homens mais bem pagos da regio...
       - No, Ed, no  o Estado ou os homens que tm culpa da atual situao - retrucou, pensando em ir para casa de Paty, embora no fosse uma segunda-feira. - 
A culpada de tudo foi sua ambio desmedida, como eu tambm sofri por causa da minha.
       - Pagarei o que voc pedir para resolver essa situao - suplicou Ed.
       Olhou-o, sentindo-se feliz, mas no porque estava desejando vingar-se. No final, cada um encontrava o que havia procurado. Pena que Ed no tivesse uma profisso, 
para poder se defender. De repente, sentiu algo diferente s costas. Virou-se, e seus olhos toparam com os de Paty.
       - Soube pelos jornais - sussurrou, abraando-se a ele.
       - Paty, voc j conhece Ed?
       O rapaz cumprimentou rapidamente a moa e continuou:
       - Faa seu preo, Jack. Eu pagarei sem discutir.
       - Ora, Ed, estou muito satisfeito nos laboratrios, onde venho trabalhando h mais de trs meses. L, no passo de um qumico vulgar; pagam-me pelo que valho, 
e pretendo me casar, com o ordenado que estou recebendo. Eu e minha mulher faremos as despesas da casa, e viveremos sem alimentar ambies impossveis. Estas podem 
ficar com voc, e lamento que no consiga sair do atoleiro que foi criado por voc mesmo.
       - Escute, Jack... Se ns conversssemos?
       - No adianta, Ed, pois no me sinto tentado por suas ofertas - respondeu, atraindo Paty para mais perto dele. - Nem que me oferecesse tudo o que tem, eu 
no voltaria mais para a fbrica. Quando eu me casei com sua irm, ela vivia acreditando em suas mentiras. Naquela poca, eu amava minha ambio e desejava ser fiel 
a minha esposa. Poderamos ter sido felizes se voc no se tivesse intrometido em nossa vida... Contudo, eu jamais teria conhecido as delcias do amor, e nem conheceria 
tampouco a felicidade. Mas voc nos prejudicou profundamente, e agora j  tarde para querer remediar o mal que nos fez... Eu desconhecia o amor, que trs a felicidade 
a uma vida; at pensava que ele no existia. Entretanto, um dia eu o encontrei, e ento vi que estava totalmente errado. Percebi que de nada nos adianta os sucessos 
se no foram conseguidos mediante nossos prprios esforos. Voc tem diante nossos prprios esforos. O que vai fazer dele? Seu tio no confiava em voc, por isso 
legou-o a Wanda, confiando em que ela se casasse com algum que soubesse dirigir aquele monoplio. Voc no sabe como faz-lo... A situao est semelhante a um 
barco sem leme, em alto mar...
       - Jack, mas eu no entendo do negcio.
       Paty interveio com a suavidade de sempre, olhando para Jack.
       - Nem entenderia se Jack gastasse o resto da vida falando com o senhor.
       - Quem  a senhora?
       - Sou as amarras que esto no porto seguro onde Jack conseguiu atracar seu barco...
       - Oua-me...
       - No adianta, Ed. Cuide de sua indstria e das trapalhadas que criou no meio do operariado. Voc nunca pensou o que significa semear confuso nas mentes 
de ignorantes. Mas agora vai compreender que tambm faz parte deste mundo, semeado de ignorncia e inconscincia.
       - Jack! - chamou-o, mas eles j no podiam ouvi-lo, pois afastavam-se abraadinhos.
       
       - Declaro-vos marido e mulher - dizia o juiz, perante duas testemunhas completamente desconhecidas.
       Naquele momento, nada tinha importncia para eles, a no ser se saberem juntos para o resto da vida.
       - No tenho mais carro - confessou  noiva.
       - Teve de vend-lo, para pagar o tratamento de sua mulher.
       - Como soube? Mas esqueamos disso agora.
       - Sim, Jack. Eu o conheo muito mais do que possa imaginar.
       - E no tanto como saber - retrucou maliciosamente.
       E no estava mentindo, pois ela s o conheceria depois.
       Quando chegaram ao apartamento de Paty, ele jogou a mala no cho e levantou a noiva nos braos, sentindo-a vibrante.
       - Eu a amo, Paty.
       - Jack - murmurou, coladinha a ele. - Eu pensei que voc continuava trabalhando com os Daton.
       - Eu sabia, mas agora esquea de tudo que no seja ns mesmos.
       - Jack, por que voc no me contou?
       - Eu tinha tantas coisas para lhe contar, bem...
       - Estou falando de Wanda, Ed e a fbrica.
       - Eu j me esqueci disso tudo - retrucou, rindo.
       Depois beijou-a demoradamente, e Paty lanou um suspiro abafado.
       - Jack... - mas ele no respondia, pois estava empolgado pelo amor que ela tinha para lhe dar. - Jack...
       - No fale agora, meu bem.
       - Eu s... queria dizer... que o amo, Jack - no pde continuar porque ele a beijava com sofreguido.
       Ela soltou um gemido e reclamou:
       - Voc no tem direito de me maltratar assim, querido.
       - Voc sabia que eu a amava mais do que tudo na vida, e vou viver lhe dizendo isso, meu amor.
       San Diego amanhecia e as ruas comeavam a se movimentar, mas os dois continuavam deitados abraadinhos, imveis e cansados.
       - Jack, voc est to calado... Em que est pensando?
       - Saboreio os momentos que tivemos, querida. Posso dizer que somente hoje eu comecei a viver!
       
       FIM
       CORIN SRIE VERDE 77 - O SABOR DA VIDA - (VEN A VERME LOS LUNES) - CORIN TELLADO
